quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Podemos estar nos deixando enganar

 

                    Podemos estar nos deixando enganar

Muitos se dizem espíritas, mas ainda não compreenderam, em profundidade, a finalidade do Espiritismo.

Allan Kardec deixou isso muito claro ao definir a Doutrina Espírita como possuidora de um tríplice aspecto:

·         uma ciência, que investiga os fenômenos por meio de métodos;

·         uma filosofia, que busca compreender a realidade à luz da razão;

·         e um sentimento religioso, que tem como eixo central a moral.

Sob essa perspectiva, podemos afirmar que o Espiritismo abrange diversas áreas do conhecimento humano, o que nos permite compreendê-lo também como uma doutrina essencialmente pedagógica, voltada à educação integral do ser.

Causa-nos profunda tristeza observar pessoas que fazem um “espiritismo à moda da casa”, adotando práticas estranhas e, muitas vezes, divergentes da Codificação Kardeciana. Não se trata de negar que o Espiritismo seja uma doutrina progressista — ele o é. No entanto, ainda não assimilamos plenamente tudo o que Kardec nos deixou para, então, promover mudanças significativas no campo doutrinário.

O progresso é natural e necessário, sobretudo na forma de executar algumas práticas, como o estudo com jovens e adolescentes, que pertencem a uma geração com ampla bagagem informacional e tecnológica. Precisamos acompanhar a evolução dos métodos pedagógicos, da linguagem e dos recursos, sem jamais recorrer a práticas que contrariem os princípios kardecianos.

Recentemente, encontrei no YouTube um canal que leva o nome de um Espírito muito conhecido entre os espíritas, reconhecido por contribuições relevantes não apenas no campo moral, mas também no científico. No entanto, esse canal é inteiramente dedicado à propaganda política, venerando um determinado político como se fosse um enviado divino para salvar a humanidade, enquanto o outro é apresentado como representante das “trevas”.

Pergunto-me, com sincera preocupação: seria plausível que um Espírito sério se prestasse a esse papel, tomando partido político e fazendo propaganda ideológica?

Tenho afirmado, reiteradas vezes, que Espiritismo é uma coisa; opiniões pessoais, mesmo atribuídas a Espíritos, são outra. A Doutrina foi trazida pelos Espíritos superiores, mas passou por um trabalho rigoroso e criterioso de Kardec, que teve extremo cuidado para não se deixar enganar por Espíritos pseudo-sábios. Por isso, utilizou métodos, comparações e o controle universal do ensino dos Espíritos como forma de se aproximar da verdade.

O alerta está dado: especialmente em períodos eleitorais, não podemos misturar política partidária com a Doutrina Espírita. Isso não significa negar a importância da política na vida social, mas reconhecer que, no âmbito espírita, ela deve ser abordada apenas sob a ótica da ética, da moral e da responsabilidade social, jamais da ideologia ou da militância.

Precisamos estar atentos para que o clima de polarização não abra brechas às más influências espirituais. O respeito à democracia é fundamental para a construção de um mundo mais fraterno, onde cada indivíduo tenha o direito de seguir seu caminho, conforme suas escolhas, desejos e intenções.

Devemos lembrar que, vivendo em um mundo de provas e expiações, cada Espírito traz sua própria bagagem evolutiva, e não nos cabe nivelar consciências ou impor verdades.

Kardec nos advertiu insistentemente sobre a importância do uso da razão e do bom senso. No entanto, parece que essa prática nem sempre é comum, inclusive entre aqueles que possuem formação acadêmica, mas que, muitas vezes, se deixam conduzir pelo orgulho, acreditando-se acima dos outros. Conhecimento intelectual, por si só, não é sinônimo de acerto moral, pois é possível saber muito e, ainda assim, não saber o que fazer com esse saber, deixando-se guiar pelas paixões.

Tenho visto, inclusive, algumas comunicações que me causam grande preocupação, especialmente por serem assinadas por Espíritos de elevada envergadura moral. Isso revela a falta de critério e de análise rigorosa, assim como ocorre com muitos livros psicografados que apresentam informações divergentes da Codificação Espírita.

Mais uma vez, é importante lembrar: o Espiritismo é progressista, mas toda nova informação precisa passar pelo crivo da universalidade e da razão. Mesmo os Espíritos podem se enganar, pois não são detentores de todo o saber. Se assim fossem, não precisariam reencarnar — como foi o caso do próprio Emmanuel

Vigiemos, portanto, nossos pensamentos e atitudes. Respeitemos o próximo e suas escolhas, mesmo quando as consideramos equivocadas, pois é assim que gostaríamos de ser tratados. Para ilustrar o estágio evolutivo em que cada um se encontra, recordo o Mito da Caverna de Platão.

Nessa alegoria, Platão descreve pessoas que vivem desde o nascimento acorrentadas dentro de uma caverna, voltadas apenas para uma parede, sem jamais ver a luz do sol. A única realidade que conhecem são as sombras projetadas na parede por objetos que passam diante de uma fogueira. Para elas, essas sombras constituem toda a realidade existente

Quando um dos prisioneiros se liberta e sai da caverna, seus olhos doem diante da luz, mas, aos poucos, ele passa a enxergar cores, formas e dimensões antes inimagináveis. Compreende, então, que aquilo que antes tomava como realidade era apenas uma sombra da verdade.

O Mito da Caverna simboliza a libertação da ignorância e a busca pela verdade, destacando a importância da educação, da reflexão crítica e do uso da razão. É exatamente disso que precisamos: instrução como ferramenta educativa e da filosofia como caminho para o entendimento racional.

Somente assim evitaremos o engano. Afinal, não são os outros que nos enganam; somos nós que nos permitimos ser enganados quando deixamos de raciocinar, questionar e refletir.

Sandra Fiore