Podemos
estar nos deixando enganar
Muitos se
dizem espíritas, mas ainda não compreenderam, em profundidade, a finalidade do
Espiritismo.
Allan Kardec
deixou isso muito claro ao definir a Doutrina Espírita como possuidora de um
tríplice aspecto:
·
uma ciência, que investiga os fenômenos por meio
de métodos;
·
uma filosofia, que busca compreender a realidade
à luz da razão;
·
e um sentimento religioso, que tem como eixo
central a moral.
Sob essa
perspectiva, podemos afirmar que o Espiritismo abrange diversas áreas do
conhecimento humano, o que nos permite compreendê-lo também como uma doutrina
essencialmente pedagógica, voltada à educação integral do ser.
Causa-nos
profunda tristeza observar pessoas que fazem um “espiritismo à moda da casa”,
adotando práticas estranhas e, muitas vezes, divergentes da Codificação
Kardeciana. Não se trata de negar que o Espiritismo seja uma doutrina
progressista — ele o é. No entanto, ainda não assimilamos plenamente tudo o que
Kardec nos deixou para, então, promover mudanças significativas no campo
doutrinário.
O progresso é
natural e necessário, sobretudo na forma de executar algumas práticas, como o
estudo com jovens e adolescentes, que pertencem a uma geração com ampla bagagem
informacional e tecnológica. Precisamos acompanhar a evolução dos métodos
pedagógicos, da linguagem e dos recursos, sem jamais recorrer a práticas que
contrariem os princípios kardecianos.
Recentemente,
encontrei no YouTube um canal que leva o nome de um Espírito muito conhecido
entre os espíritas, reconhecido por contribuições relevantes não apenas no
campo moral, mas também no científico. No entanto, esse canal é inteiramente
dedicado à propaganda política, venerando um determinado político como se fosse
um enviado divino para salvar a humanidade, enquanto o outro é apresentado como
representante das “trevas”.
Pergunto-me,
com sincera preocupação: seria plausível que um Espírito sério se prestasse a
esse papel, tomando partido político e fazendo propaganda ideológica?
Tenho
afirmado, reiteradas vezes, que Espiritismo é uma coisa; opiniões pessoais,
mesmo atribuídas a Espíritos, são outra. A Doutrina foi trazida pelos Espíritos
superiores, mas passou por um trabalho rigoroso e criterioso de Kardec, que
teve extremo cuidado para não se deixar enganar por Espíritos pseudo-sábios.
Por isso, utilizou métodos, comparações e o controle universal do ensino dos
Espíritos como forma de se aproximar da verdade.
O alerta está
dado: especialmente em períodos eleitorais, não podemos misturar política
partidária com a Doutrina Espírita. Isso não significa negar a importância da
política na vida social, mas reconhecer que, no âmbito espírita, ela deve ser
abordada apenas sob a ótica da ética, da moral e da responsabilidade social,
jamais da ideologia ou da militância.
Precisamos
estar atentos para que o clima de polarização não abra brechas às más
influências espirituais. O respeito à democracia é fundamental para a
construção de um mundo mais fraterno, onde cada indivíduo tenha o direito de
seguir seu caminho, conforme suas escolhas, desejos e intenções.
Devemos
lembrar que, vivendo em um mundo de provas e expiações, cada Espírito traz sua
própria bagagem evolutiva, e não nos cabe nivelar consciências ou impor
verdades.
Kardec nos
advertiu insistentemente sobre a importância do uso da razão e do bom senso. No
entanto, parece que essa prática nem sempre é comum, inclusive entre aqueles
que possuem formação acadêmica, mas que, muitas vezes, se deixam conduzir pelo
orgulho, acreditando-se acima dos outros. Conhecimento intelectual, por si só,
não é sinônimo de acerto moral, pois é possível saber muito e, ainda assim, não
saber o que fazer com esse saber, deixando-se guiar pelas paixões.
Tenho visto,
inclusive, algumas comunicações que me causam grande preocupação, especialmente
por serem assinadas por Espíritos de elevada envergadura moral. Isso revela a
falta de critério e de análise rigorosa, assim como ocorre com muitos livros
psicografados que apresentam informações divergentes da Codificação Espírita.
Mais uma vez,
é importante lembrar: o Espiritismo é progressista, mas toda nova informação
precisa passar pelo crivo da universalidade e da razão. Mesmo os Espíritos
podem se enganar, pois não são detentores de todo o saber. Se assim fossem, não
precisariam reencarnar — como foi o caso do próprio Emmanuel
Vigiemos,
portanto, nossos pensamentos e atitudes. Respeitemos o próximo e suas escolhas,
mesmo quando as consideramos equivocadas, pois é assim que gostaríamos de ser
tratados. Para ilustrar o estágio evolutivo em que cada um se encontra, recordo
o Mito da Caverna de Platão.
Nessa
alegoria, Platão descreve pessoas que vivem desde o nascimento acorrentadas
dentro de uma caverna, voltadas apenas para uma parede, sem jamais ver a luz do
sol. A única realidade que conhecem são as sombras projetadas na parede por
objetos que passam diante de uma fogueira. Para elas, essas sombras constituem
toda a realidade existente
Quando um dos
prisioneiros se liberta e sai da caverna, seus olhos doem diante da luz, mas,
aos poucos, ele passa a enxergar cores, formas e dimensões antes inimagináveis.
Compreende, então, que aquilo que antes tomava como realidade era apenas uma
sombra da verdade.
O Mito da
Caverna simboliza a libertação da ignorância e a busca pela verdade, destacando
a importância da educação, da reflexão crítica e do uso da razão. É exatamente
disso que precisamos: instrução como ferramenta educativa e da filosofia como
caminho para o entendimento racional.
Somente assim
evitaremos o engano. Afinal, não são os outros que nos enganam; somos nós que
nos permitimos ser enganados quando deixamos de raciocinar, questionar e
refletir.
Sandra Fiore