Enfrentando
o Luto: Um Caminho de Aceitação e Crescimento
O luto é uma experiência universal,
uma resposta inevitável à perda que afeta a todos em algum momento. Como
devemos nos comportar diante da dor que essa experiência traz?
O luto não se limita apenas à morte
de um ente querido. Envolve qualquer perda significativa: um status social, um
objeto de valor, um emprego, um animal de estimação, o fim de um
relacionamento, uma amizade rompida, etc. Todas essas situações desencadeiam um
processo de luto, caracterizado por uma gama de reações emocionais.
O luto é composto por cinco fases, e
cada pessoa vivencia essas etapas de maneira única e em seu próprio ritmo:
·
Negação:
Inicialmente, a pessoa recusa-se a aceitar a perda, negando a realidade da
situação.
·
Isolamento:
Há uma tendência a se afastar dos outros, preferindo a solidão para lidar com
seus sentimentos, muitas vezes de autopiedade.
·
Raiva:
Surge a revolta, que pode incluir a culpa em Deus ou em outras circunstâncias.
·
Tristeza:
Uma depressão profunda toma conta, embora não necessariamente de ordem clínica,
mas um abatimento profundo.
·
Aceitação:
O estágio final e mais desafiador, onde a pessoa finalmente reconhece e aceita
a perda, permitindo a si mesma seguir em frente.
Embora a dor intensa no início seja
inevitável, o luto é um processo essencial para lidar com sentimentos e
alcançar a aceitação. Especialistas em saúde mental sugerem que o luto tem um
período natural de duração, geralmente entre três a quatro meses, embora esse
prazo possa variar. A dor é inevitável, mas o sofrimento prolongado é opcional.
Quando o luto se torna insuportável, buscar ajuda é fundamental, pois a dor
deve ser transitória.
O luto deve ser visto como uma fase
de transição entre a perda e a busca de um novo sentido na existência. É um
período de aprendizado e fortalecimento. Assim como uma cirurgia, onde a dor
inicial é grande, as vezes insuportável ficando na dependência de analgésico,
mas a cicatriz permanece deixando marcas profundas, embora a dor, depois de um
tempo, se torne inexistente.
Comumente ouvimos que precisamos ser
fortes diante da perda, especialmente da morte física, mas essa força só emerge
quando lidamos adequadamente com nossos sentimentos. Se precisar chorar, chore;
isso ajuda a lavar a alma.
Quando a morte nos visita, levando
alguém de volta à espiritualidade, lembremo-nos de que, segundo o espiritismo,
não perdemos ninguém. Eles estão em outra dimensão, e podemos reencontrá-los em
sonhos ou na vida após a morte. É comum sonharmos com pessoas que já partiram e
acordarmos com a sensação de que foi real. Pode ter certeza, isso aconteceu.
Conheci uma vizinha que desencarnou
muito jovem, aos 29 anos. Graduada em Enfermagem, trabalhava em um importante
hospital em São Paulo, ocupando um cargo de chefia. Em uma de suas visitas ao
interior do estado, onde morava sua família, estava acompanhada do noivo, pois
em breve se casariam. Numa manhã, enquanto tomava banho, sofreu um infarto
fulminante e veio a óbito. Sua família entrou em desespero, e sua mãe, muito
católica, ia à missa todas as manhãs e ajudava nos cuidados da igreja. Em sua
casa, havia um altar onde fazia suas orações matinais; foi a que mais demorou a
chegar ao estágio de aceitação.
Quando a filha se foi, a mãe entrou
em depressão e deixou o quarto da jovem exatamente como estava, até com a roupa
sobre a cama que usaria após o banho. Anos se passaram, e a mãe permaneceu
vivenciando o luto, revoltando-se contra Deus. Mesmo assim, continuava suas
orações matinais diante do altar de sua casa, sempre chorando e não se
conformando com o sacrifício que fez para que sua filha estudasse e se tornasse
uma profissional de talento.
Um dia, encontrou uma amiga na rua,
que há muito não via. A amiga percebeu que ela não estava bem, faltava-lhe o
sorriso nos lábios e os olhos estavam tristes. Convidou-a para ir ao centro
espírita. A princípio, recusou, mas, com a insistência, acabou indo.
Naquela época, há quarenta anos, os
trabalhos mediúnicos envolviam a participação do público. Nesse dia, sua filha
se manifestou, não dando o nome, mas contando sua história. Disse que sua mãe
estava presente, contou detalhes que apenas ela sabia, como as roupas guardadas
e o vestido que ficara sobre a cama, e mencionou as manhãs de choro diante do
altar quando ela tentava consolá-la, mas sem sucesso. Pediu à mãe que doasse
tudo o que restava dela e se envolvesse com a dor alheia, pois isso lhe faria
bem. A mãe não teve dúvidas de que se tratava de sua filha e mais: tornou-se
espírita e passou a ajudar em uma casa de repouso para idosos carentes. Mas a
história não parou aí. Uma noite, ao dormir, viu uma entidade em seu quarto
convidando-a para um passeio. Sem medo, aceitou, embora não soubesse quem era.
Foi levada a um grande prédio envidraçado e, como era noite, não havia ninguém.
Em um grande corredor, viu surgir ao longe uma pessoa que, ao se aproximar,
revelou-se ser sua filha. Abraçaram-se, e a filha disse: "Mamãe, a senhora
sempre pensou que meu estudo foi em vão, pois quero lhe dizer que este é um
hospital, e aqui exerço minha profissão." Hoje, não tenho mais notícias
dela. Talvez tenha também retornado à pátria espiritual; caso isso tenha ocorrido,
com certeza está ao lado da filha.
Histórias como essa confortam nossa
alma! A doutrina espírita, codificada por Allan Kardec, proporciona um
entendimento profundo e reconfortante sobre a vida após a morte. O mestre
lionês se dedicou intensamente à fenomenologia e ao estudo da reencarnação,
aspectos que hoje são explorados por universidades. Esses assuntos não se
restringem ao espiritismo ou à religiões, mas se estende à ciência, explicando
com clareza que esses fenômenos são naturais, sempre existiram e sempre
existirão. Kardec foi pioneiro ao estudar esses temas de forma sistemática,
trazendo um novo nível de compreensão ao mundo.
O luto, se prolongado, pode levar a
patologias diversas ou psicológicas, como gastrite, úlceras, doenças
autoimunes, câncer, ansiedade, depressão, síndrome do pânico, transtorno de
personalidade borderline, entre outras. Um filme que ilustra bem a necessidade
de preparar os filhos no caso de uma separação é "Um Filho", com Hugh
Jackman. A história mostra como o despreparo dos pais, que resolveram se
divorciar sem preparar adequadamente o filho, pode ser interpretada como uma
perda, levando a sentimentos de luto. Essa situação pode afetar profundamente
uma criança, levando-a a desenvolver transtornos emocionais. O jovem no filme
desenvolve transtorno borderline, e o final é surpreendente. Vale a pena
assistir, pois nos faz refletir sobre como atos egoístas podem afetar quem
convive conosco.
Ao lidar com a perda de alguém que
retornou à pátria espiritual, o conhecimento da imortalidade da alma, aliado à
doutrina que conforta e esclarece, pode facilitar a superação das adversidades.
A fé e a esperança proporcionam alívio significativo à dor. Chico Xavier dizia:
“Tudo passa.” O tempo atua como um aliado na cura das feridas, mas exige
esforço e determinação. Como Jesus disse em Mateus 11:28: “Vinde a mim
todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” Cristo
é, sem dúvida, o bálsamo para nossas aflições; compreendido e vivenciado, Ele,
junto com orações sinceras, alimenta nossa fé e esperança. A saudade pode
persistir, pois é o amor que fica. Aceitar o que não podemos mudar é crucial,
pois algumas coisas estão além de nosso controle. Precisamos alcançar o estágio
da aceitação
Há uma pessoa do meu convívio que vive
o luto há mais de 17 anos. Além de ter desenvolvido depressão, já está com um
processo obsessivo evidente, manifestado por mudanças na personalidade,
agressividade, e depois não se lembra do ocorrido. Isso acontece porque ficamos
vulneráveis e entidades infelizes aproveitam a oportunidade. Entre a obsessão e
um transtorno mental (psicopatologia), a linha é muito tênue; é preciso cuidado
para distinguir um do outro, pois a sintomatologia é muito semelhante. No caso
da depressão, são distúrbios hormonais que ocorrem no cérebro e requerem
cuidados médicos.
Portanto, ao enfrentar qualquer
situação difícil, devemos buscar ajuda, seja através da religiosidade ou de
profissionais de saúde. O importante é agir, pois nunca estamos desamparados.
Nossa vida terrena deve continuar em busca da ascensão espiritual, mantendo em
nossa alma os bons momentos vividos com aqueles que partiram. Lembrando que não
existe uma maneira “correta” de enfrentar o luto. Cada jornada é única e
encontrar a forma que melhor possa ajudar a lidar com a perda é essencial. Se
os sentimentos de luto interferirem significativamente na vida diária ou se
prolongarem por muito tempo, buscar ajuda profissional é um passo importante.
Porém, como disse nosso querido Milton
Nascimento em sua canção:
Mesmo que o tempo e a distância digam
não
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir a voz que vem
do coração
Qualquer dia, amigo, a gente volta a
se encontrar.
De fato, não existe adeus quando
alguém parte para a espiritualidade, mas um até breve. Enfrentemos o luto, seja
ele qual for, pois sairemos dele fortalecidos. Confiemos no amor de Deus e em
Suas leis perfeitas, imutáveis e eternas.
Sandra Fiore