terça-feira, 12 de novembro de 2024

 

Enfrentando o Luto: Um Caminho de Aceitação e Crescimento

O luto é uma experiência universal, uma resposta inevitável à perda que afeta a todos em algum momento. Como devemos nos comportar diante da dor que essa experiência traz?

O luto não se limita apenas à morte de um ente querido. Envolve qualquer perda significativa: um status social, um objeto de valor, um emprego, um animal de estimação, o fim de um relacionamento, uma amizade rompida, etc. Todas essas situações desencadeiam um processo de luto, caracterizado por uma gama de reações emocionais.

O luto é composto por cinco fases, e cada pessoa vivencia essas etapas de maneira única e em seu próprio ritmo:

·         Negação: Inicialmente, a pessoa recusa-se a aceitar a perda, negando a realidade da situação.

·         Isolamento: Há uma tendência a se afastar dos outros, preferindo a solidão para lidar com seus sentimentos, muitas vezes de autopiedade.

·         Raiva: Surge a revolta, que pode incluir a culpa em Deus ou em outras circunstâncias.

·         Tristeza: Uma depressão profunda toma conta, embora não necessariamente de ordem clínica, mas um abatimento profundo.

·         Aceitação: O estágio final e mais desafiador, onde a pessoa finalmente reconhece e aceita a perda, permitindo a si mesma seguir em frente.

Embora a dor intensa no início seja inevitável, o luto é um processo essencial para lidar com sentimentos e alcançar a aceitação. Especialistas em saúde mental sugerem que o luto tem um período natural de duração, geralmente entre três a quatro meses, embora esse prazo possa variar. A dor é inevitável, mas o sofrimento prolongado é opcional. Quando o luto se torna insuportável, buscar ajuda é fundamental, pois a dor deve ser transitória.

O luto deve ser visto como uma fase de transição entre a perda e a busca de um novo sentido na existência. É um período de aprendizado e fortalecimento. Assim como uma cirurgia, onde a dor inicial é grande, as vezes insuportável ficando na dependência de analgésico, mas a cicatriz permanece deixando marcas profundas, embora a dor, depois de um tempo, se torne inexistente.

Comumente ouvimos que precisamos ser fortes diante da perda, especialmente da morte física, mas essa força só emerge quando lidamos adequadamente com nossos sentimentos. Se precisar chorar, chore; isso ajuda a lavar a alma.

Quando a morte nos visita, levando alguém de volta à espiritualidade, lembremo-nos de que, segundo o espiritismo, não perdemos ninguém. Eles estão em outra dimensão, e podemos reencontrá-los em sonhos ou na vida após a morte. É comum sonharmos com pessoas que já partiram e acordarmos com a sensação de que foi real. Pode ter certeza, isso aconteceu.

Conheci uma vizinha que desencarnou muito jovem, aos 29 anos. Graduada em Enfermagem, trabalhava em um importante hospital em São Paulo, ocupando um cargo de chefia. Em uma de suas visitas ao interior do estado, onde morava sua família, estava acompanhada do noivo, pois em breve se casariam. Numa manhã, enquanto tomava banho, sofreu um infarto fulminante e veio a óbito. Sua família entrou em desespero, e sua mãe, muito católica, ia à missa todas as manhãs e ajudava nos cuidados da igreja. Em sua casa, havia um altar onde fazia suas orações matinais; foi a que mais demorou a chegar ao estágio de aceitação.

Quando a filha se foi, a mãe entrou em depressão e deixou o quarto da jovem exatamente como estava, até com a roupa sobre a cama que usaria após o banho. Anos se passaram, e a mãe permaneceu vivenciando o luto, revoltando-se contra Deus. Mesmo assim, continuava suas orações matinais diante do altar de sua casa, sempre chorando e não se conformando com o sacrifício que fez para que sua filha estudasse e se tornasse uma profissional de talento.

Um dia, encontrou uma amiga na rua, que há muito não via. A amiga percebeu que ela não estava bem, faltava-lhe o sorriso nos lábios e os olhos estavam tristes. Convidou-a para ir ao centro espírita. A princípio, recusou, mas, com a insistência, acabou indo.

Naquela época, há quarenta anos, os trabalhos mediúnicos envolviam a participação do público. Nesse dia, sua filha se manifestou, não dando o nome, mas contando sua história. Disse que sua mãe estava presente, contou detalhes que apenas ela sabia, como as roupas guardadas e o vestido que ficara sobre a cama, e mencionou as manhãs de choro diante do altar quando ela tentava consolá-la, mas sem sucesso. Pediu à mãe que doasse tudo o que restava dela e se envolvesse com a dor alheia, pois isso lhe faria bem. A mãe não teve dúvidas de que se tratava de sua filha e mais: tornou-se espírita e passou a ajudar em uma casa de repouso para idosos carentes. Mas a história não parou aí. Uma noite, ao dormir, viu uma entidade em seu quarto convidando-a para um passeio. Sem medo, aceitou, embora não soubesse quem era. Foi levada a um grande prédio envidraçado e, como era noite, não havia ninguém. Em um grande corredor, viu surgir ao longe uma pessoa que, ao se aproximar, revelou-se ser sua filha. Abraçaram-se, e a filha disse: "Mamãe, a senhora sempre pensou que meu estudo foi em vão, pois quero lhe dizer que este é um hospital, e aqui exerço minha profissão." Hoje, não tenho mais notícias dela. Talvez tenha também retornado à pátria espiritual; caso isso tenha ocorrido, com certeza está ao lado da filha.

Histórias como essa confortam nossa alma! A doutrina espírita, codificada por Allan Kardec, proporciona um entendimento profundo e reconfortante sobre a vida após a morte. O mestre lionês se dedicou intensamente à fenomenologia e ao estudo da reencarnação, aspectos que hoje são explorados por universidades. Esses assuntos não se restringem ao espiritismo ou à religiões, mas se estende à ciência, explicando com clareza que esses fenômenos são naturais, sempre existiram e sempre existirão. Kardec foi pioneiro ao estudar esses temas de forma sistemática, trazendo um novo nível de compreensão ao mundo.    

O luto, se prolongado, pode levar a patologias diversas ou psicológicas, como gastrite, úlceras, doenças autoimunes, câncer, ansiedade, depressão, síndrome do pânico, transtorno de personalidade borderline, entre outras. Um filme que ilustra bem a necessidade de preparar os filhos no caso de uma separação é "Um Filho", com Hugh Jackman. A história mostra como o despreparo dos pais, que resolveram se divorciar sem preparar adequadamente o filho, pode ser interpretada como uma perda, levando a sentimentos de luto. Essa situação pode afetar profundamente uma criança, levando-a a desenvolver transtornos emocionais. O jovem no filme desenvolve transtorno borderline, e o final é surpreendente. Vale a pena assistir, pois nos faz refletir sobre como atos egoístas podem afetar quem convive conosco.

Ao lidar com a perda de alguém que retornou à pátria espiritual, o conhecimento da imortalidade da alma, aliado à doutrina que conforta e esclarece, pode facilitar a superação das adversidades. A fé e a esperança proporcionam alívio significativo à dor. Chico Xavier dizia: “Tudo passa.” O tempo atua como um aliado na cura das feridas, mas exige esforço e determinação. Como Jesus disse em Mateus 11:28: “Vinde a mim todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” Cristo é, sem dúvida, o bálsamo para nossas aflições; compreendido e vivenciado, Ele, junto com orações sinceras, alimenta nossa fé e esperança. A saudade pode persistir, pois é o amor que fica. Aceitar o que não podemos mudar é crucial, pois algumas coisas estão além de nosso controle. Precisamos alcançar o estágio da aceitação

Há uma pessoa do meu convívio que vive o luto há mais de 17 anos. Além de ter desenvolvido depressão, já está com um processo obsessivo evidente, manifestado por mudanças na personalidade, agressividade, e depois não se lembra do ocorrido. Isso acontece porque ficamos vulneráveis e entidades infelizes aproveitam a oportunidade. Entre a obsessão e um transtorno mental (psicopatologia), a linha é muito tênue; é preciso cuidado para distinguir um do outro, pois a sintomatologia é muito semelhante. No caso da depressão, são distúrbios hormonais que ocorrem no cérebro e requerem cuidados médicos.

Portanto, ao enfrentar qualquer situação difícil, devemos buscar ajuda, seja através da religiosidade ou de profissionais de saúde. O importante é agir, pois nunca estamos desamparados. Nossa vida terrena deve continuar em busca da ascensão espiritual, mantendo em nossa alma os bons momentos vividos com aqueles que partiram. Lembrando que não existe uma maneira “correta” de enfrentar o luto. Cada jornada é única e encontrar a forma que melhor possa ajudar a lidar com a perda é essencial. Se os sentimentos de luto interferirem significativamente na vida diária ou se prolongarem por muito tempo, buscar ajuda profissional é um passo importante. Porém,  como disse nosso querido Milton Nascimento em sua canção:

Mesmo que o tempo e a distância digam não

Mesmo esquecendo a canção

O que importa é ouvir a voz que vem do coração

Qualquer dia, amigo, a gente volta a se encontrar.

De fato, não existe adeus quando alguém parte para a espiritualidade, mas um até breve. Enfrentemos o luto, seja ele qual for, pois sairemos dele fortalecidos. Confiemos no amor de Deus e em Suas leis perfeitas, imutáveis e eternas.

Sandra Fiore

 

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