quarta-feira, 21 de julho de 2021

               A invisibilidade da mulher

 

Uma estátua foi levantada em Nova York em frente ao Tribunal de Justiça, onde a Medusa aparece carregando a cabeça decapitada de Perseus.

Quem conhece a história mitológica sabe que ela foi amaldiçoada injustamente, tendo o cabelo de cobra, passando a transformar pessoas em estatuas, foi banida, morta e decapitada por Perseus.

Esta estatua é o símbolo da justiça a personagem e as inúmeras Medusas da vida Real que sofrem o mesmo destino por falta de justiça no mundo, as vezes pelo simples fato de serem mulheres supostamente frágeis, e quando negras, aumenta-se ainda mais essas injustas. Não se trata de vingança, porém o papel da arte é trazer reflexões e questionamentos.

Ao longo da história, a mulher tem sofrido muitas perseguições, preconceitos, descriminações, fazendo com que algumas lutassem bravamente pelos seus direitos e de todas as outras mulheres, foi exatamente com esse propósito que surgiu o Dia Internacional da Mulher.

Em 1910 durante uma conferência na Dinamarca foi decidido que 8 de março seria o Dia Internacional das Mulheres, porém somente em 1975 foi oficializada através de um decreto pela ONU com objetivo de discutir o papel da mulher na sociedade, tentar diminuir o preconceito, a desvalorização, os baixos salários, a violência, o feminicídio, alguns acreditam que o propósito desse dia é homenageá-la, mas a mulher não precisa de homenagem e sim de respeito.

Podemos dizer que as “supostas sexos frágeis” já obtiveram grandes conquistas sociais, porém o caminho é longo e árduo, os desafios são enormes para se conseguir outras conquistas como dignidade e poder se igualar em direitos aos homens no contexto social, não é andar à frente deles, não é mostrar que são melhores, mas estarem ao lado desses irmãos que hoje se revestem de um corpo masculino. 

Durante séculos a mulher foi vista como um ser à parte, não tendo direito ao voto, a palavra, seu papel era exclusivamente de ser esposa, dona do lar, mãe e servir aos interesses masculinos e deveriam lhe devotar respeito, obediência e até chamá-los de meu senhor.

Essa imagem de fragilidade e submissão sempre esteve ligado à mulher, principalmente na Antiguidade, Idade Média e hoje um pouco menos, mas ainda existe, embora de forma velada, tanto que os feminicídios acontecem, por conta do homem se sentir superior e às vezes proprietário da mulher.  

A Grécia antiga influenciou a humanidade no campo da filosofia, das artes plásticas, da arquitetura, do teatro, enfim, de muitas ideias e conceitos que deram origem às atuais ciências humanas, exatas e biológicas, havia no pensamento de muitos, que a mulher não tinha o direito de ser amada porque consideravam que ela não tinha alma, servia apenas para procriar, assim como o pensamento do filosofo Aristóteles (384aC) que considerava a mulher algo pequeno, insignificante como fica demostrado nessa frase de sua autoria: “A fêmea é apenas um material, um “recipiente”, de modo que a verdadeira “alma” ou “papel ativo” é reservado ao macho”.

Elas não participavam da vida pública, não podiam sair sozinhas e quando o faziam, tinham que cobrir a cabeça não podendo conversar com pessoas que encontrassem pelo caminho.

No século XVIII, "O Século da Filosofia, das Luzes” Rousseau o filósofo que deu sua contribuição para o surgimento do movimento Iluminista na Europa, movimento esse que acabou cominando na Revolução Francesa, tendo por slogan:” Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, porém não deram a mulher o direito de vivenciar o que esses filósofos defendiam.  Uma frase de Jean-Jacques Rousseau que demostra isso é: “A mulher é um ser destinado ao casamento e a maternidade”

·        Quanto a Napoleão... “A mulher é nossa propriedade e nós não somos propriedade dela”.

·        Schopenhauer filosofo Polonês ...“Cabelos longos inteligência curta”.

·        Emmanuel Kant filosofo nascido na Prússia ...“Pouco dotada intelectualmente, caprichosa indiscreta e moralmente fraca”.

Algumas se passaram por homens para conquistarem seus sonhos, como o caso de Shabana Basij-Rasikh, ativista em prol dos direitos das mulheres, a educadora afegã é a fundadora da empresa Hela inc., cuja missão é empoderar mulheres através da educação, e da SOLA (School of Leadership, Afghanistan; Escola de Liderança, Afeganistão) em seu país natal. Shabana tinha seis anos de idade quando o Talibã proibiu a educação de meninas no Afeganistão na década de 1990. Inconformada, durante cinco anos arriscou sua vida se vestindo como menino para frequentar uma escola secreta levando livros em sacolas de feira. 

Na atualidade, no Brasil, em questão de política, vemos poucas mulheres participando da vida democrática no país de acordo com a FGV... “No Brasil, as mulheres são quase 50% dos filiados a partidos políticos, mas no momento de montar a lista dos candidatos à deputado federal, elas ficam com apenas 30% das vagas, percentual mínimo imposto pela legislação eleitoral. E, no final, apenas 15% dos deputados federais são mulheres”. http://www.cepesp.io/por-que-ha-poucas-mulheres-na-politica-brasileira-5-perguntas-para-ivan-mardegan/

Quantos aos textos alegóricos evangélicos, quando não se tem os devidos cuidados com as interpretações, comete-se erros por não buscarem o espírito da letra e isso vem contribuindo ao longo dos tempos para discriminar ainda mais a mulher, quando diz que: “A mulher foi criada a partir da costela de Adão”, sendo, portanto, ligada a ele em submissão e quando foram expulsos do paraíso por Deus, foi dado a Eva toda a responsabilidade por ter supostamente induzido Adão ao erro e hoje as mulheres carregam nos ombros o peso da dor da humanidade pelo pecado original.

Como tem sido árdua essa batalha das mulheres, principalmente das negras para conquistar seu espaço na sociedade, derrubar tabus, o respeito aos seus direitos e não somente aos seus deveres.  Hoje perguntamos, quantos nomes de mulheres lembramos que foram importantes para a humanidade, quantas cientistas, filosofas, pintoras, escritoras, jornalistas, antropólogas, sociólogas conhecidas que deixaram seus nomes escritos na história?

Aliás, no passado, as mulheres escritoras, jornalistas para terem seus trabalhos divulgados, usavam pseudônimos masculinos ou se fossem cientistas, davam aos maridos, irmãos a autoria de seus trabalhos, porque havia grande resistência em aceitar tudo que vinham das chamadas sexos frágeis.

Na época da escravidão nos EUA, as mulheres negras, escravas, trabalhadoras nas lavouras de colheita de algodão, debaixo de sol e chuva, sofrendo as dores das humilhações, das chibatas lambendo os lombos, ferindo a alma, os calos nas mãos, sem nenhuma compaixão dos seus senhores, porem no Brasil não foi diferente, período que muito nos envergonha e entristece, enquanto na Europa nesse mesmo período, as mulheres brancas não podiam exercer atividades consideradas de peso, nem por isso eram tratadas com mais dignidade.  Isso nos mostra que ser mulher e negra tinha e continua tendo um peso grande de discriminação e preconceito pela sociedade, principalmente machista.

E quando se fala em religiões, há inúmeras cujos dirigentes (homens), calcados em registros do Velho Testamento, presos a letra (vendo alí "a palavra de Deus"), insistem que a finalidade da mulher é obedecer ao homem e servir como instrumento de reprodução.

No Alcorão (livro sagrado do islamismo) confere ao homem o "direito" de bater na mulher, se esta não lhe obedecer.

Para os mulçumanos ortodoxos ainda hoje a mulher não pode sair às ruas, pois corre o risco de ser presa, assim como mostrar o rosto em alguns países do oriente médio. Quando li a Trilogia da Princesa Sultana, escrito pela jornalista Jean P. Sasson, contando com detalhes como é a vida dessas mulheres mulçumanas relatado por uma princesa que não podia ter seu nome divulgado, fiquei assustada, muito, muito distantes do que poderíamos dizer ser algo normal na nossa visão ocidental, embora isso seja cultural, fica difícil aceitar sem se indignar.  

E no espiritismo, teria discriminação? Homens espiritas como veem as mulheres no movimento?  A doutrina nos ensina que espírito não tem sexo e estagiamos ora em corpos masculinos, ora em corpos femininos, isso faz parte da nossa aprendizagem e nosso progresso.

Jesus era feminista, gostava das mulheres e as defendia, muitas passaram a segui-lo numa época em que viviam à margem da sociedade, algumas estavam sempre com Ele, a ouvi-lo, a beber do néctar dos seus ensinamentos como: Maria de Magdala, Joana de Cusa entre outras.

Alguns podem estar se perguntando.... Se espírito não tem sexo por que Jesus não deu exemplo e veio num corpo feminino? Porque não conseguiria ter cumprido sua missão, seus ensinamentos não teriam atingido os objetivos de tocar os corações e como mestre, ensinar o caminho para que todos possamos encontrar os tijolinhos das virtudes e construirmos o reino de Deus em nossos corações.

Embora não tenha vindo como mulher, escolheu uma discípula, Maria Magdala, causando ciumeira entre todos os outros discípulos, ela foi a primeira a rever Jesus despois da ressurreição do espírito e revelar a Boa Nova aos apóstolos.

Mesmo com tantos conhecimentos adquiridos hoje, revelado pelos espíritos ao nosso codificador Kardec através dos médiuns, existe no meio espírita preconceitos e resistências contra a mulher?  

Para contribuir com as reflexões pergunto, quantas escritoras espiritas conhecemos, quantas vem à nossa mente, e quantos homens? Quantas oradoras conhecidas e quantos homens? Quando vemos os eventos espiritas como congressos, notando os cartazes de divulgação, percebemos vários homens, uma no máximo duas mulheres, ou seja, há mais cravos do que rosas trabalhando como divulgadores da doutrina no jardim perfumado do movimento espírita. O que está faltando para mudarmos esse quadro?  Será que as mulheres precisam se engajarem mais, terem coragem de se mostrar? E aos homens, será que falta se desvencilhar dos atavismos?

Podemos dizer que, toda mulher deve se empoderar, se valorizar, esteja na religião, na vida social, deve continuar lutando dignamente, mostrar que são capazes de andar lado a lado do homem, ser filha, mãe, esposa, amiga, parceira, oradora, advogada, engenheira, motorista, pedreira, pintora, jornalista, radialista, atriz, carpinteira, cientista, médica, gari, caminhoneira, farmacêutica, dentista, prefeita, governadora, deputada, senadora, presidente.... principalmente, mostrar lealdade, honra, moral, ética, capacidade física e intelectual, além de desenvolver os mais nobres sentimentos, lembrando, somos todos filhos de Deus e Ele nunca privilegia ninguém, porém nos dá oportunidade de crescermos e nos tornamos melhores através das várias experiências reencarnatoria.... Mulheres, avante!!!

SANDRA FIORE

Artista plástica, faz Graduação em Filosofia.

Espírita há mais de 36 anos, integrante da União Espírita Paschoal Grossi de Araraquara, coordenadora de grupos de estudos, divulgadora do espiritismo através de palestras, seminários.