domingo, 27 de outubro de 2013

Mediunidade


“Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo. (...) Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou meno
s, médiuns. (Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, capítulo XIV).

Assim, conforme asseverou o Codificador, todos mantemos contato com o Mundo Espiritual, pois vivemos em incessante intercâmbio com o mesmo. Desta forma, ao fazermos uma oração recebemos o amparo da espiritualidade maior, do nosso protetor/mentor espiritual, entramos em contato com as usinas de força da Vida Maior. Por conseguinte, estamos exercendo a mediunidade, haja vista que recebemos a influência dos espíritos superiores. E, pela questão da sintonia vibratória, isso também vale para os espíritos menos elevados, pois quando alguém tem pensamentos inferiores, espíritos que se afinam com estes são atraídos. "O pensamento é o laço que nos une aos Espíritos, e pelo pensamento nós atraímos os que simpatizam com as nossas idéias e inclinações". Allan Kardec. Entretanto, usualmente só se chamam de médiuns “aqueles em quem a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva”. (Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, capítulo IX)

Posto isso, os principais tipos de mediunidade são:

.de efeitos físicos: este tipo pode ser dividido em dois grupos, ou seja, os facultativos - que têm consciência dos fenômenos por eles produzidos - e os involuntários ou naturais, que são inconscientes de suas faculdades, mas são usados pelos espíritos para promoverem manifestações fenomênicas sem que o saibam.

.dos médiuns sensitivos ou impressionáveis: são pessoas suscetíveis de sentirem a presença dos espíritos por uma vaga impressão. Esta faculdade se desenvolve pelo hábito e pode adquirir tal sutileza, que aquele que a possui reconhece, pela impressão que experimenta, não só a natureza, boa ou má, do espírito que se aproxima, mas até a sua individualidade.

.médiuns audientes ou clariaudientes: neste caso os médiuns ouvem a voz dos espíritos. O fenômeno manifesta-se algumas vezes como uma voz interior, que se faz ouvir no foro íntimo. Outras vezes, dá-se como uma voz exterior, clara e distinta, semelhante a de uma pessoa viva. Os médiuns audientes podem, assim, estabelecer conversação com os espíritos.

.médiuns videntes ou clarividentes: são dotados da faculdade de ver os espíritos. Cabe salientar que o médium não vê com os olhos, mas é a alma quem vê e por isso é que eles tanto vêem com os olhos fechados, como com os olhos abertos.

.médiuns psicofônicos: neste tipo o médium serve como um instrumento pelo qual o espírito se comunica pela fala; assim, há a acoplação do perispírito do espírito comunicante no perispírito do médium, permitindo, assim, que o espírito utilize o aparelho fonador do médium para fazer uso da fala.

.médiuns de cura: Este gênero de mediunidade consiste, principalmente, no dom que possuem certas pessoas de curar pelo simples toque, pelo olhar, mesmo por um gesto, sem o concurso de qualquer medicação. Dir-se-á, sem dúvida, que isso mais não é do que magnetismo. Evidentemente, o fluido magnético desempenha aí importante papel. Porém, quem examina cuidadosamente o fenômeno sem dificuldade reconhece que há mais alguma coisa. A magnetização ordinária é um verdadeiro tratamento seguido, regular e metódico. No caso que apreciamos, as coisas se passam de modo inteiramente diverso. Todos os magnetizadores são mais ou menos aptos a curar, desde que saibam conduzir-se convenientemente, ao passo que nos médiuns curadores a faculdade é espontânea e alguns até a possuem sem jamais terem ouvido falar de magnetismo. A intervenção de uma potência oculta, que é o que constitui a mediunidade, se faz manifesta, em certas circunstâncias, sobretudo se considerarmos que a maioria das pessoas que podem, com razão, ser qualificadas de médiuns curadores recorre à prece, que é uma verdadeira evocação.

.médiuns mecânicos: Quem examinar certos efeitos que se produzem nos movimentos da mesa, da cesta, ou da prancheta que escreve não poderá duvidar de uma ação diretamente exercida pelo Espírito sobre esses objetos. A cesta se agita por vezes com tanta violência, que escapa das mãos do médium e não raro se dirige a certas pessoas da assistência para nelas bater. Outras vezes, seus movimentos dão mostra de um sentimento afetuoso. O mesmo ocorre quando o lápis está colocado na mão do médium; freqüentemente é atirado longe com força, ou, então, a mão, bem como a cesta, se agitam convulsivamente e batem na mesa de modo colérico, ainda quando o médium está possuído da maior calma e se admira de não ser senhor de si Digamos, de passagem, que tais efeitos demonstram sempre a presença de Espíritos imperfeitos; os Espíritos superiores são constantemente calmos, dignos e benévolos; se não são escutados convenientemente, retiram-se e outros lhes tomam o lugar. Pode, pois, o Espírito exprimir diretamente suas idéias, quer movimentando um objeto a que a mão do médium serve de simples ponto de apoio, quer acionando a própria mão.

Quando atua diretamente sobre a mão, o Espírito lhe dá uma impulsão de todo independente da vontade deste último. Ela se move sem interrupção e sem embargo do médium, enquanto o Espírito tem alguma coisa que dizer, e pára, assim ele acaba.

Nesta circunstância, o que caracteriza o fenômeno é que o médium não tem a menor consciência do que escreve. Quando se dá, no caso, a inconsciência absoluta; têm-se os médiuns chamados passivos ou mecânicos. E preciosa esta faculdade, por não permitir dúvida alguma sobre a independência do pensamento daquele que escreve.

.médiuns intuitivos: 180. A transmissão do pensamento também se dá por meio do Espírito do médium, ou, melhor, de sua alma, pois que por este nome designamos o Espírito encarnado. O Espírito livre, neste caso, não atua sobre a mão, para fazê-la escrever; não a toma, não a guia. Atua sobre a alma, com a qual se identifica. A alma, sob esse impulso, dirige a mão e esta dirige o lápis. Notemos aqui uma coisa importante: é que o Espírito livre não se substitui à alma, visto que não a pode deslocar. Domina-a, mau grado seu, e lhe imprime a sua vontade. Em tal circunstância, o papel da alma não é o de inteira passividade; ela recebe o pensamento do Espírito livre e o transmite. Nessa situação, o médium tem consciência do que escreve, embora não exprima o seu próprio pensamento. E o que se chama médium intuitivo.

Mas, sendo assim, dir-se-á, nada prova seja um Espírito estranho quem escreve e não o do médium. Efetivamente, a distinção é às vezes difícil de fazer-se, porém, pode acontecer que isso pouca importância apresente. Todavia, é possível reconhecer-se o pensamento sugerido, por não ser nunca preconcebido; nasce à medida que a escrita vai sendo traçada e, amiúde, é contrário à idéia que antecipadamente se formara. Pode mesmo estar fora dos limites dos conhecimentos e capacidades do médium.

O papel do médium mecânico é o de uma máquina; o médium intuitivo age como o faria um intérprete. Este, de fato, para transmitir o pensamento, precisa compreendê-lo, apropriar-se dele, de certo modo, para traduzi-lo fielmente e, no entanto, esse pensamento não é seu, apenas lhe atravessa o cérebro. Tal precisamente o papel do médium intuitivo.

.médiuns semimecânicos: 181. No médium puramente mecânico, o movimento da mão independe da vontade; no médium intuitivo, o movimento é voluntário e facultativo. O médium semimecânico participa de ambos esses gêneros. Sente que à sua mão uma impulsão é dada, mau grado seu, mas, ao mesmo tempo, tem consciência do que escreve, à medida que as palavras se formam. No primeiro o pensamento vem depois do ato da escrita; no segundo, precede-o; no terceiro, acompanha-o. Estes últimos médiuns são os mais numerosos

.médiuns inspirados: 182. Todo aquele que, tanto no estado normal, como no de êxtase, recebe, pelo pensamento, comunicações estranhas às suas idéias preconcebidas, pode ser incluído na categoria dos médiuns inspirados. Estes, como se vê, formam uma variedade da mediunidade intuitiva, com a diferença de que a intervenção de uma força oculta é aí muito menos sensível, por isso que, ao inspirado, ainda é mais difícil distinguir o pensamento próprio do que lhe é sugerido. A espontaneidade é o que, sobretudo, caracteriza o pensamento deste último gênero. A inspiração nos vem dos Espíritos que nos influenciam para o bem, ou para o mal, porém, procede, principalmente, dos que querem o nosso bem e cujos conselhos muito amiúde cometemos o erro de não seguir. Ela se aplica, em todas as circunstâncias da vida, às resoluções que devamos tomar. Sob esse aspecto, pode dizer-se que todos são médiuns, porquanto não há quem não tenha seus Espíritos protetores e familiares, a se esforçarem por sugerir aos protegidos salutares idéias. Se todos estivessem bem compenetrados desta verdade, ninguém deixaria de recorrer com freqüência à inspiração do seu anjo de guarda, nos momentos em que se não sabe o que dizer, ou fazer. Que cada um, pois, o invoque com fervor e confiança, em caso de necessidade, e muito freqüentemente se admirará das idéias que lhe surgem como por encanto, quer se trate de uma resolução a tomar, quer de alguma coisa a compor. Se nenhuma idéia surge, é que é preciso esperar. A prova de que a idéia que sobrevém é estranha à pessoa de quem se trate esta em que, se tal idéia lhe existira na mente, essa pessoa seria senhora de, a qualquer momento, utilizá-la e não haveria razão para que ela se não manifestasse à vontade. Quem não é cego nada mais precisa fazer do que abrir os olhos, para ver quando quiser. Do mesmo modo, aquele que possui idéias próprias tem-nas sempre à disposição. Se elas não lhes vêm quando quer, é que está obrigado a buscá-las algures, que não no seu intimo.

Também se podem incluir nesta categoria as pessoas que, sem serem dotadas de inteligência fora do comum e sem saírem do estado normal, têm relâmpagos de uma lucidez intelectual que lhes dá momentaneamente desabitual facilidade de concepção e de elocução e, em certos casos, o pressentimento de coisas futuras. Nesses momentos, que com acerto se chamam de inspiração, as idéias abundam, sob um impulso involuntário e quase febril. Parece que uma inteligência superior nos vem ajudar e que o nosso espírito se desembaraçou de um fardo.

183. Os homens de gênio, de todas as espécies, artistas, sábios, literatos, são sem dúvida Espíritos adiantados, capazes de compreender por si mesmos e de conceber grandes coisas. Ora, precisamente porque os julgam capazes, é que os Espíritos, quando querem executar certos trabalhos, lhes sugerem as idéias necessárias e assim é que eles, as mais das vezes, são médiuns sem o saberem. Têm, no entanto, vaga intuição de uma assistência estranha, visto que todo aquele que apela para a inspiração, mais não faz do que uma evocação. Se não esperasse ser atendido, por que exclamaria, tão freqüentemente: meu bom gênio, vem em meu auxílio?

As respostas seguintes confirmam esta asserção:

a) Qual a causa primária da inspiração?
"O Espírito que se comunica pelo pensamento."

b) A revelação das grandes coisas não é que constitui o objeto único da inspiração?
"Não, a inspiração se verifica, muitas vezes, com relação às mais comuns circunstâncias da vida. Por exemplo, queres ir a alguma parte: uma voz secreta te diz que não o faças, porque correrás perigo; ou, então, te diz que faças uma coisa em que não pensavas. É a inspiração. Poucas pessoas há que não tenham sido mais ou menos inspiradas em certos momentos."

c) Um autor, um pintor, por exemplo, poderiam, nos momentos de inspiração, ser considerados médiuns?
"Sim, porquanto, nesses momentos, a alma se lhes torna mais livre e como que desprendida da matéria; recobra uma parte das suas faculdades de Espírito e recebe mais facilmente as comunicações dos outros Espíritos que a inspiram."
.médiuns de pressentimentos: O pressentimento é uma intuição vaga das coisas futuras. Algumas pessoas têm essa faculdade mais ou menos desenvolvida. Pode ser devida a uma espécie de dupla vista, que lhes permite entrever as conseqüências das coisas atuais e a filiação dos acontecimentos. Mas, muitas vezes, também é resultado de comunicações ocultas e, sobretudo neste caso, é que se pode dar aos que dela são dotados o nome de médiuns de pressentimentos, que constituem uma variedade dos médiuns inspirados.
"Mediunidade espírita, porém, é a que faculta o intercâmbio consciente, responsável, entre o mundo físico e o espiritual, facultando a sublimação das provas pela superação da dor e pela renúncia às paixões, ao mesmo tempo abrindo à criatura os horizontes luminosos para a libertação total, mediante o serviço aos companheiros do caminho humano, gerando amor com os instrumentos da caridade redentora de que ninguém pode prescindir". Joanna de Ângelis (espírito), livro Oferenda - pág. 130/131 -, psicografado por Divaldo Franco
. médiuns psicógrafos: Transmitem as comunicações dos espíritos através da escrita. São subdivididos em mecânicos, semimecânicos e intuitivos. Os mecânicos não têm consciência do que escrevem e a influência do pensamento do médium na comunicação é quase nenhuma. Como há um grande domínio da entidade sobre a faculdade mediúnica a idéia do espírito comunicante se expressa com maior clareza. Há casos em que o médium psicografa mensagens complexas conversando com outras pessoas, totalmente distraído do que escreve. Já nos semimecânicos, a influência da entidade comunicante sobre as faculdades mediúnicas não é tão intensa, pois a comunicação sofre uma influência do pensamento do médium. Isso ocorre com a maioria dos médiuns psicógrafos. Com relação os intuitivos, estes recebem a idéia do espírito comunicante e a interpretam, desenvolvendo-a com os recursos de suas próprias possibilidades morais e intelectuais.

“Mediunidade espírita, porém, é a que faculta o intercâmbio consciente, responsável, entre o mundo físico e o espiritual, facultando a sublimação das provas pela superação da dor e pela renúncia às paixões, ao mesmo tempo abrindo à criatura os horizontes luminosos para a libertação total, mediante o serviço aos companheiros do caminho humano, gerando amor com os instrumentos da caridade redentora de que ninguém pode prescindir”. Joanna de Ângelis (espírito), livro Oferenda – pág. 130/131 -, psicografado por Divaldo Franco

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Homenagem ao Wallace Leal Rodrigues por Rosinha R. Toledo.

    Mocidade Espírita de Araraquara – Uma pagina de saudades com nosso querido Wallace.



  Recuando no tempo (década de 40), recordo-me do Wallace descendo a avenida 15 de novembro, juntamente com Sra. Ninira, sua irmã e mais algumas pessoas.
  A eles juntávamos eu, minha mãe e mais alguns irmãos que vínhamos da Avenida D. Pedro. O destino era, irmos ao Centro Espirita situado mais abaixo naquela avenida. Àquele tempo, os trabalhos mediúnicos eram realizados de portas abertas com acesso a todos que ali quisessem entrar.
            Esse foi o meu 1º contato com o Wallace. Passado algum tempo, a vida encarregava-se de nos afastar, raramente o via pela cidade, embora ouvisse sempre referências elogiosas a seu respeito no campo das realizações culturais e filantrópicas.
            Já em 18/07/1948 quando da instalação do I Congresso de Mocidade Espirita do Brasil no Teatro João Caetano – SP, de Araraquara se fizeram representar Dr. Ayrton de Toledo e Wallace L. Rodrigues, tamanho o seu engajamento no movimento espirita.
            Tornei-me espirita lá pelos idos de 1949, mais precisamente em 10/09 e fui muito bem recebida na recém-nascente Mocidade Espirita.
            Formara-se um grupo de jovens que unidos, definiriam as metas norteadas do movimento espirita em Araraquara nos setores da Evangelização Infantil. Mocidade e Centros Espiritas, igualmente sendo responsáveis pela Fundação da União Municipal Espirita (U.M.E.).
            Embora de formação espirita desde a infância, somente lá pelos anos de 1950, pudemos contar com a presença e participação desse querido companheiro Wallace na Mocidade à qual imprimiu grande dinamismo. Sua interferência, aliada à ajuda e entusiasmo de todos, a Mocidade pode contar com a presença ilustres de alguns cientistas, filósofos, escritores de renomes nacionais e internacionais. Como exemplo citaríamos entre outros, Pietro Ubaldi autor da monumental obra “ A grande síntese” além do jovem e promissor Divaldo Pereira Franco e o deputado Campos Vergal.
            Sua participação na mocidade foi multifacetária, nos campos da cultura, das artes, do lazer e estudos com pesquisa e investigações.
            Em 1951 os jovens reunidos decidiram sobre a importância da criação de um órgão de divulgação de suas atividades e dos postulados da Doutrina Espirita. E foi, portanto lançado um pequeno periódico ao qual deram o nome de Folha Juventina.  No 1º. Numero na capa, logo abaixo, Wallace escreve:
            “Não tenho queda para reportagens. Para crônicas, sim! Acho apaixonante escrever para as gerações que virão. Escrever para homens e mulheres do meu tempo, acontecimentos e iniciativas, experiências a frustações. Sei que um dia, a coletividade desta “Toca do Sol” será toda espirita. Nesse dia, muitos desejarão saber como cresceu a árvore Evangelho Kardeciana nesta terra. “A Folha Juventina” contará”. (Palavras proféticas)
            Ficaríamos aqui escrevendo paginas e paginas sobre a importante participação desse querido companheiro de ideal, que fez nascer entre Ele e nós, já amigos, uma grande camaradagem cimentada na amizade verdadeira e respeito.
            Aos domingos costumávamos passar o dia praticamente juntos, desde as reuniões doutrinárias matinais, seguidas de passeios à tarde e culminando nas sessões de cinema.
            Que dias inesquecíveis aqueles! Creio que para nós e para Ele, foi um tempo bastante proveitoso e feliz.
            O meu relacionamento pessoal com Wallace estreitou-se sobremaneira, devido aos constantes conversas, trocas de ideias e impressões, ou talvez por razões que se perdem na esteira do tempo. Por ter Ele um espirito muito investigativo e incomodar-me com aquilo que não suscita respostas às minhas duvidas e curiosidade, assediava o querido amigo Wallace com muitas indagações.
            Certa vez, Wallace disse-me que havia terminado um livro, mas que estava com duvidas quanto ao nome. Pediu-me se eu aceitaria opinar sobre o assunto, o que já fora solicitado a algumas pessoas. Naturalmente aceitei, mas tive que lê-lo. Estava ainda no original, com algumas correções a serem feitas. Os nomes propostos eram: “O que veio por ultimo” ou “Esquina de pedra”.
            O assunto versava sobre o nascimento do cristianismo e posteriormente sua adulteração selada no Concilio de Niceia com a nomenclatura de Catolicismo de caráter mais politico que religioso. 
            Como houve consenso nas opiniões solicitadas, sagrou-se o nome “  Esquina de Pedra”.
            Intrigada com a qualidade e diversidade de informações e situações de certos detalhes apresentados no livro, quis saber Dele algumas explicações.
            - Como, onde, quem lhe fornecera tão vasto material Wallace? E Ele responde.
            - Rosinha, eu estava e me sentia lá.
            Posteriormente a publicação do livro, Ele incluiu no final do mesmo, uma nota da qual o ultimo paragrafo passo a transcrever.
            “Este livro, escrito sob forte vibração espiritual foi enriquecido por esses informes (da nota) quando já havia sido terminado. Acreditamos firmemente que todos os acontecimento e personagens presentes são reais e que os acontecimentos foram apenas suavizados, uma vez que nos sentimos dentro das cenas ao escrevê-lo. Varias das personalidades retratadas já foram detectadas por nossa sensibilidade. Todavia, isto não quer dizer absolutamente que A Esquina de Pedra, seja um livro psicografado.
            Ainda nesta semana conversando com Carlos Alberto ex-secretário e amigo do Wallace, para poder escrever esta crônica, não só confirmou a veracidade das minhas informações, como acrescentou que o nosso amigo em comum, assegurava-lhe que tinha a faculdade dos desdobramentos constantes, narrando-lhe sobre algumas vidas que intuíra ter.  Em  relação ao livro “A ESQUINA DE PEDRA , garantiu-lhe ter sido um soldado romano e testemunha das grandes perseguições aos cristãos da época.
            Isto me tranquilizou quanto à autenticidade das minhas afirmativas, já confirmada também por outros amigos que conviveram conosco na Mocidade Espirita.
            Lá pela década de 70, encontramo-nos e numa conversa usual, Ele falou-me que estava esperando umas copias que viriam de Londres e que tratavam das experiências de Sir Willian Crooks, um dos maiores sábios da época sobre materializações.
            - E como você obteve esse material? Perguntei curiosa.
            - Talvez movido por forte interesse pelo assunto, desdobrei-me e fui até Londres constatando que aquele precioso acervo estava à salvo. Respondeu Wallace
            Após a publicação do livro lê-se no prefacio:
            “O trabalho foi árduo. A nosso favor tínhamos apenas as antigas coleções de órgãos espíritas dos arquivos schutelianos, e, inesperadamente, a descoberta de que os bombardeios de Londres não tinham destruído de todo as chapas fotográficas que Mr. Harrison, editor do "The Spirítualist" e o próprio Sir William Crookes haviam batido. Obter cópias foi um trabalho de obstinação.”
            Eu estava no Colégio Progresso fazendo um curso complementar e o professor de Pedagogia pediu-nos um trabalho sobre um pedagogo famoso. Sem duvidas escolhi Pestalozzi, pois não há apenas um simples elo sentimental casual entre este o pedagogo e Kardec, ambos discípulos do mesmo Mestre que a todos nos inspira, Jesus.
            Sabia que o Wallace estava participando de um concurso à nível nacional, sobre esse famoso educador. Solicitei-lhe algumas informações a respeito, e Ele atencioso como sempre, emprestou-me o original do seu trabalho. Até hoje guardo com carinho os apontamentos que completaram satisfatoriamente o meu trabalho e fiquei muito feliz em saber que Ele obteve a consagração com o 1º lugar, merecidamente.
            Curiosa como sou, nesse papo de como, quem, quando, Ele informou-me.
            - Eu me via junto à Pestalozzi às margens do Lago de Genebra, conversando amigavelmente. E dessa forma foram obtidas certas particularidades e informações. ( Ele tinha facilidade no processo de desdobramento como já dissemos anteriormente)
            Outro episodio pitoresco ocorrido que Ele frequentemente nós narrava.
            -Sabe Rosinha, eu me vejo numa bela carruagem onde estão sentados ao meio Napoleão Bonaparte, ladeado por Madame de Stael (romancista e ensaista francesa que incorporou como poucas mulheres o espírito do Iluminismo francês) e a mulher mais linda da França.
            Empolgado e envaidecido Ele diria:
            - Estou entre uma das maiores inteligência e de mais exuberante beleza da França.
            Ao que eu lhe respondia:
            - Infelizmente não posso dizer o mesmo!
            Notava que Ele sentia um grande prazer ao contar-me esse episodio. São conhecidas as diferenças entre Napoleão e Madame de Stael, daí o sorriso como uma pequena vingança. Isto porque Wallace sentia fortes indícios de ter sido a famosa escritora.
            Passaram-se alguns anos e lá pela década de 80, soube que Wallace se encontrava doente. Naquela época eu era Coordenadora da Mocidade Espirita da Obreiros do Bem. Então preocupada com as condições de sua saúde e igualmente saudosa, achei oportuno levar o presidente da Mocidade o Sr. Braz a conhecê-lo e sugerindo-lhe que pedisse a permissão para uma entrevista a respeito de sua biografia.
            Telefonei-lhe sobre minha intenção, pois Ele já estava restrito quanto às visitas. Felizmente anuiu como sempre fazia quando solicitava-lhe algo. Marcamos dia e hora. Fomos recebidos com cortesia e quanto ao objetivo que ali nos trouxera além da visita, argumentou ser melhor aproveitar aquele encontro com um papo mais agradável e descontraído e que ele mesmo escreveria sua biografia entregando-a assim que tivesse pronta. E assim aconteceu.
            Depois de algum tempo de conversa agradável, Wallace apontou-me um baú num canto, desafiando-me a dizer o que se encontrava lá.
            - Olha Wallace, vindo de você, poderá ser até as Tabuas da Lei! Sorri.
            - Não Rosinha, mas é algo de suma importância. Trata-se de um livro de Mlle Clarie Baumard, cuja tradução e prefacio redigido por Ela demonstrou ser de grande valor histórico. Essa senhora eficiente secretária e também grande amiga de Leon Denis e revela que no decorrer dos anos em que exerceu suas funções junto ao escritor já cego, redigiu um Diário, ao qual não recorreu para a leitura de sua obra. Deixava para os mais capazes e admiradores, trazerem ao mundo, a síntese de sua extraordinária obra e impar personalidade.
            Há dois prefácios no livro: um explicativo do Wallace, mas extenso, fornecendo-nos informações valiosas sobre a vida de homens que preludiaram o advento da 3ª. Revelação. Coloca o Espiritismo num contexto histórico tornando mais compreensível o seu surgimento do Luzeiro prometido pelo Mestre Jesus. O outro prefacio de Sir Arthur Conan Doyle também enaltece a figura desse notável Apostolo.
            Achei o Wallace inconformado pela autora não querer valer-se de seu Diario. Dizia Ele:
            - Em que mãos estariam agora o precioso documento (Diário)?
            Desapontado escreveria ao lado de seu prefacio – “O que o livro de Clarie Naumard não contou....”
            Conhecendo-o bem,  estranhei Ele não ter conseguido localizar o paradeiro de tal preciosidade.
            Estaria o nosso Sherlock Holmes do espiritismo perdendo o faro?
            No dia do lançamento do livro “Leon Denis na intimidade”, realizado na banca espirita que fica em um das praças centrais de Araraquara, eu me ofereci para ir busca-lo de carro, pois suas condições físicas não o permitiam ir à pé. Assim procedi e trazendo-o após o termino com meu exemplar debaixo do braço,  devidamente autografado com dedicatória.
            “Para minha queridíssima Rosinha, com o beijo e o coração “Wallace
            Guardo-o com muito carinho e saudades.
            Finalizando, arrojo-me o direito de tecer algumas impressões a respeito do meu caro amigo Wallace, embora sem as suas condições culturais de pensar e se expressar que tanta admiração causava a todos. Por isso vou me utilizar de outro instrumento, o coração, que através de palavras simples e singelas, chegue até o seu, esse órgão da fé e da esperança e com o qual divisamos os verdadeiros amigos.
            Dando asas à imaginação, como numa comparação analógica, sempre via o Wallace assimilando-se a um pássaro multicor de exuberante e linda plumagem, preso numa gaiola dourada; por vezes feliz e saltitante diante dos olhares maravilhados de sua beleza e maravilhoso canto; outras vezes, entristecido, pois apesar da admiração causada e sabendo-se ser um ornamento raro, sofria com os grilhões da prisão e por atitudes intempestivas de crianças, jovens e até de alguns adultos totalmente distanciados do respeito, da sensibilidade e, sobretudo do amor.
            A dualidade de sentimentos nos surpreende a cada passo. Quando merecer disfrutar a felicidade completa? Nos bem sabemos; quando a conquistarmos e ela exige esforço, luta, desapego, equilíbrio, enfim, evolução espiritual. Mas ainda somos seres humanos fragilizados principalmente nas nossas emoções.
            Ah! Se tivéssemos o condão de perscrutar a alma nos seus escaninhos mais profundos. Quem poderá prever as lagrimas de alguém, mesmo estando em situação privilegiada?
            Maria Dolores, com sua extrema sensibilidade, através da psicografia de Chico Xavier, nos brindou  com uma verdadeira perola de sabedoria – O poema “Erros de Amor” do qual extrai uma estrofe que nos leva à reflexão.
            “Entre o afeto que sonha e o dever que governa,
            Quando conflito surge e quanto anseios vem!
            Quando a dor de ser só escurece o caminho
            Ninguém pode prever as lagrima de alguém...”

            O nosso belo pássaro, inconformado com seu destino, debatia-se, machucando as asas nas grades da gaiola na inútil tentativa de quebra-la. Queria voar, ver o sol frente a frente, contornar as estrelas, sentir mais próximo o suave perfume das flores e o êxtase do amor; desfrutar do direito de não ser caçado, perseguido, aprisionado, discriminado, enfim, viver intensamente a sua sensibilidade.
            A ave mais ferida por expectativas e sonhos, não realizados,  torna-se prisioneiro de si mesmo e contrapondo-se à expressiva contribuição ofertada para a valorização das coisas enriquecedoras, continuou machucando-se, machucando-se sem ter realizado a plenitude de vida almejada.
            Um dia encontraram-no muito ferido e morto.
            Os que passavam diziam:
            - Olhem o pássaro de impar beleza, que tanto enriquecia nossas vidas, que alegria e felicidade ele nos proporcionava. Que grande perda, sentiremos muitas saudades.
            Alguém retrucou – Deus que é  justiça e misericórdia,  não deveria permitir essa morte tão triste! Disse outro:
            - Pois foram exatamente esse tributos Divinos que proporcionara-lhe condições para a devida reabilitação e reduzindo sua liberdade que tantos perigos oportunizam. Deus protegeu-o meu caro, dos outros e dele mesmo. Porventura não somos todos igualmente prisioneiros dos corpos que merecemos? 
            Que você querido amigo Wallace, capte através da acústica do seu sensível espirito, hoje livre, a verdadeira intensão dessa pequena e sincera oferenda, de sua amiga Rosinha.

Rosinha de Toledo