sábado, 1 de agosto de 2026

 

Espiritismo e política

 

 

Estamos vivendo um período em que as paixões políticas estão à flor da pele. A polarização alcançou níveis preocupantes e, muitas vezes, transforma adversários políticos em inimigos. Pessoas deixam de ouvir, de dialogar e até de questionar as próprias convicções. Ideias tornam-se cristalizadas, e a emoção passa a ocupar o lugar da reflexão.

É justamente nesse cenário que surge uma pergunta que não podemos evitar: o Espiritismo pode e deve envolver-se com política?

Para responder, precisamos recorrer às obras da Codificação Espírita e, principalmente, compreender uma distinção fundamental: política não é sinônimo de partidarismo.

A política, em seu sentido mais amplo, faz parte da vida humana. Diz respeito à organização da sociedade, às leis, à justiça, à liberdade, à igualdade, aos direitos e deveres, à administração dos recursos públicos e às decisões que afetam a coletividade. Portanto, não faria sentido imaginar o ser humano espírita completamente alheio às questões sociais.

Outra coisa, porém, é transformar o Centro Espírita ou o movimento espírita em espaço de disputa partidária, propaganda eleitoral ou defesa de candidatos.

O que encontramos em Kardec? Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec trata de questões que possuem profundas consequências sociais. As perguntas sobre igualdade, liberdade, justiça, propriedade, leis, governo, sociedade e progresso mostram que o Espiritismo não ignora a vida coletiva.

Na questão 793, por exemplo, Kardec pergunta: “Por que sinais se pode reconhecer uma civilização completa?”

A resposta relaciona o verdadeiro progresso à superação do egoísmo, à justiça e ao desenvolvimento moral. Isso nos leva a uma reflexão importante: uma sociedade pode ser tecnologicamente avançada e, ao mesmo tempo, moralmente atrasada?

Basta observar a história. A humanidade conseguiu chegar à Lua, desenvolver inteligência artificial, realizar transplantes de órgãos e produzir tecnologias extraordinárias. Entretanto, ainda convivemos com guerras, corrupção, desigualdade, violência, intolerância e discursos de ódio.

Portanto, progresso material não significa necessariamente progresso moral.

O Espiritismo é apolítico? Não. O Espiritismo não é apolítico no sentido de ser indiferente aos problemas da sociedade. Ele possui uma concepção de ser humano e de sociedade e apresenta princípios relacionados à justiça, liberdade, responsabilidade, fraternidade e progresso. O que deve ser evitado é a partidarização da Doutrina Espírita.

Um Centro Espírita deve ser um espaço onde pessoas de diferentes posições políticas possam estudar, refletir, conviver e exercitar a fraternidade. Se uma pessoa é de esquerda, outra de direita, outra de centro ou simplesmente não se identifica com nenhuma dessas posições, todas devem encontrar ali o mesmo respeito.

Imagine, por exemplo, uma reunião mediúnica ou um estudo doutrinário em que alguém começa a defender determinado candidato e outro participante passa a atacá-lo. Rapidamente, o ambiente que deveria favorecer a reflexão espiritual transforma-se em uma disputa política.

Nesse momento, deixamos de discutir ideias para defender identidades. E esse é um dos grandes perigos da polarização. Quando o político se transforma em paixão. O problema não está apenas na política, mas na maneira como nos relacionamos com ela.

Podemos discordar de alguém sem desrespeitá-lo. Podemos considerar determinada proposta equivocada sem transformar quem a defende em uma pessoa má. Podemos votar em candidatos diferentes e continuar amigos, familiares e irmãos na humanidade.

Entretanto, quando passamos a acreditar que somente o nosso lado representa o bem, entramos em um terreno perigoso.      

É comum encontrarmos nas redes sociais pessoas tratando determinado político como se fosse um salvador da pátria, enquanto o adversário é apresentado como a própria encarnação do mal.

Isso deveria provocar em nós uma reflexão espírita. Por que transferimos para seres humanos imperfeitos expectativas que deveriam estar relacionadas ao nosso próprio processo de transformação? Nenhum político é messias. Nenhum partido possui o monopólio da verdade. Nenhum grupo humano é constituído exclusivamente por pessoas boas ou más.

O espírita, justamente por compreender a condição evolutiva do ser humano, deveria ter cautela diante da idolatria política. Pensar antes de compartilhar. As redes sociais tornaram esse problema ainda maior. 

Recebemos diariamente vídeos, frases, notícias, imagens e informações que confirmam aquilo que já pensamos. Muitas vezes compartilhamos algo simplesmente porque concorda com nossa posição, sem verificar sua origem ou veracidade. É o chamado viés de confirmação: tendemos a procurar e valorizar informações que confirmam nossas crenças e rejeitar aquelas que as contradizem.

Um exemplo simples: se alguém acredita que determinado político é incapaz, provavelmente compartilhará rapidamente uma notícia negativa sobre ele. Se aparecer uma informação positiva, poderá considerá-la propaganda ou mentira.      

O contrário também acontece. Por isso, antes de compartilhar uma informação política, poderíamos fazer algumas perguntas:

·         Quem publicou?

·         Qual é a fonte?

·         A informação foi confirmada?

·         Existe contexto que estou desconhecendo?

·         Estou compartilhando porque é verdadeiro ou porque confirma aquilo em que já acredito?

Essa atitude também é exercício de responsabilidade moral.

O fato de o Centro Espírita não ser espaço para propaganda partidária não significa que o espírita deva abandonar sua responsabilidade como cidadão. Muito pelo contrário.

Como cidadão, o espírita possui liberdade para participar da sociedade, discutir política, votar, candidatar-se, atuar em movimentos sociais e defender aquilo que considera justo, desde que o faça de acordo com sua consciência e responsabilidade. Mas essa participação é pessoal, não deve ser apresentada como posição oficial da Doutrina Espírita.

Uma pessoa pode ser espírita e escolher determinado candidato. Outra pessoa, igualmente espírita, pode escolher outro. Ambas continuam espíritas. O que importa é que suas escolhas sejam acompanhadas de consciência, responsabilidade e respeito ao próximo.

A verdadeira transformação social. Aqui encontramos uma das contribuições mais importantes do pensamento espírita.

A transformação da sociedade não depende apenas da mudança das leis ou da troca dos governantes. Depende também da transformação dos indivíduos. De que adianta combater a corrupção na política se somos tolerantes com pequenas desonestidades em nossa própria vida?

 Criticamos o político que mente, mas mentimos para obter vantagem.

Criticamos aquele que se apropria do dinheiro público, mas procuramos uma maneira de burlar uma obrigação quando isso nos beneficia.

Defendemos a ética quando ela é conveniente para nós, mas relativizamos nossos próprios erros.

É nesse ponto que a proposta espírita nos coloca diante de um espelho.

Antes de perguntar apenas “quem vai governar o país?”, talvez devêssemos perguntar: “que tipo de sociedade estamos ajudando a construir com nossas próprias atitudes?”

Política também é responsabilidade coletiva. A política, portanto, não deve ser demonizada.

Ela é necessária porque vivemos em sociedade. Precisamos de leis, instituições, governos, serviços públicos, educação, saúde, segurança, justiça e mecanismos de organização coletiva. O problema começa quando transformamos a política em uma espécie de religião, na qual deixamos de pensar e passamos apenas a acreditar.

Precisamos tomar cuidado com o fanatismo político porque ele pode produzir exatamente aquilo que o Espiritismo procura combater: o orgulho, a intolerância, o preconceito e a incapacidade de ouvir.

Podemos ter convicções firmes sem transformar nossas convicções em verdades absolutas.

Podemos defender nossas ideias sem desumanizar quem pensa diferente.

Podemos votar com consciência sem transformar o voto em profissão de fé.

E talvez aqui caiba uma frase bem-humorada que ouvi de um primo que trabalha com pesquisa nos Estados Unidos: “Brasileiro vota com o fígado e não com a razão.”

A frase é divertida, mas contém uma provocação séria.

Quantas vezes nossas escolhas políticas são determinadas pela indignação, pelo medo, pela raiva, pela paixão ou pela rejeição a alguém?

O desafio espírita é justamente outro: aprender a pensar antes de reagir.

O Espiritismo nos convida ao estudo, à reflexão e ao uso da razão. Kardec não propôs uma fé cega. Ao contrário, estabeleceu como princípio a necessidade de examinar, questionar e compreender.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:

“De que lado você está?”

Mas:

“Você consegue continuar pensando quando alguém que você admira está errado?”

E mais:

“Consegue reconhecer uma qualidade em alguém de quem discorda?”

Essa talvez seja uma das maiores demonstrações de maturidade intelectual e moral.

O verdadeiro espírita não precisa abandonar suas convicções políticas. Precisa, porém, impedir que elas dominem sua capacidade de raciocinar, de dialogar e de amar.

A política pode dividir ou pode contribuir para a construção coletiva. O voto pode ser apenas uma manifestação de paixão ou pode ser um exercício de responsabilidade. E o debate político pode transformar-se em uma guerra de opiniões ou em uma oportunidade de aprendizado.

No fundo, a questão continua sendo essencialmente espírita: não basta transformar as estruturas externas se não estivermos dispostos a transformar também aquilo que carregamos dentro de nós.

A sociedade será, em grande medida, o reflexo dos indivíduos que a compõem.

E talvez seja essa a maior contribuição que o Espiritismo possa oferecer à política: não indicar em quem devemos votar, mas ajudar-nos a compreender que toda escolha humana deve ser acompanhada de consciência, responsabilidade, ética e respeito pelo próximo.

 

Sandra Fiore

 

Bibliografia para aprofundamento

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Especialmente questões 614 a 648 (leis morais), 776 a 806 (vida social, igualdade, liberdade e progresso) e 909 a 919 (paixões e aperfeiçoamento moral).

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XI — “Amar o próximo como a si mesmo”; cap. XVII — “Sede perfeitos”.

KARDEC, Allan. A Gênese. Cap. XVIII — “São chegados os tempos”, especialmente as reflexões sobre progresso e transformação da humanidade.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Textos sobre organização social, liberdade, igualdade, fraternidade e questões relacionadas à constituição do Espiritismo.

KARDEC, Allan. Revista Espírita. Diversos artigos publicados por Kardec abordam questões sociais, liberdade, progresso e responsabilidade humana.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Para a compreensão da finalidade das reuniões espíritas e dos cuidados necessários à preservação da seriedade e da

               

 

               

sábado, 25 de julho de 2026

 

            Onde está o uso da razão, do bom senso e do espírito crítico que Kardec tanto nos ensinou?

 

Tenho acompanhado, com certa tristeza, algumas afirmações feitas por pessoas do movimento espírita que, a meu ver, se distanciam da moral do Cristo quando analisadas à luz da Doutrina Espírita. Kardec retirou o véu do misticismo, do dogmatismo e do sobrenatural, apresentando uma doutrina racional, lógica e acessível a todos. Por isso, é natural que nos perguntemos: estamos realmente estudando as obras da Codificação ou apenas repetindo ideias que se consolidaram ao longo do tempo?

Recentemente ouvi alguém afirmar que o Brasil seria uma nação privilegiada por Deus, onde o Evangelho de Jesus teria sido transplantado da França para nosso país e que, enquanto outras nações seriam mais evoluídas materialmente, o Brasil seria espiritualmente superior.

Confesso que me pergunto: em que fundamento doutrinário se apoia tal afirmação?

Se há um princípio claramente ensinado pela Doutrina Espírita é que Deus não estabelece privilégios. Suas leis são universais, justas e iguais para todos. Os Espíritos reencarnam onde sua evolução e suas necessidades educativas o exigem, independentemente da nacionalidade, da cultura ou do continente.

Muitos interpretam o livro Coração do Mundo, Pátria do Evangelho como se ele afirmasse uma superioridade espiritual do Brasil. Entretanto, essa parece ser uma leitura equivocada. A obra pode ser compreendida como uma referência à missão histórica de um país que acolheu milhões de Espíritos provenientes das mais diversas regiões do mundo, oferecendo-lhes contato mais amplo com os valores do Evangelho, por ser uma das maiores nações cristãs do planeta. Missão, porém, jamais significa privilégio.

Basta observarmos nossa realidade. Se fôssemos um povo espiritualmente mais evoluído, não conviveríamos com índices tão elevados de violência, corrupção, desigualdade, intolerância e desrespeito à vida. O progresso espiritual não se mede pela religiosidade declarada, mas pela vivência do amor, da justiça e da fraternidade.

Outra reflexão que considero necessária diz respeito à mediunidade. Minha admiração por Chico Xavier é imensa. Talvez tenha sido a maior antena mediúnica que o Brasil conheceu. Contudo, o que mais me impressiona nele não é apenas sua extraordinária faculdade mediúnica, mas sua grandeza moral. Chico viveu o Evangelho de Jesus como poucos. Compreendeu o amor em sua essência e procurou exemplificá-lo em cada gesto de sua existência.

Mas isso nos leva a outra pergunta importante: será que todo Espírito comunicante, por mais elevado que seja, é detentor da verdade absoluta? Evidentemente que não. A própria Codificação ensina que os Espíritos possuem diferentes graus de conhecimento e de evolução. Nenhum deles, exceto os Espíritos puros, alcançou a perfeição. Os bons Espíritos sabem muito, mas não sabem tudo. Podem interpretar determinados assuntos segundo sua própria compreensão e, em alguns casos, até transmitir opiniões pessoais.

O próprio Kardec jamais aceitou uma comunicação apenas pela autoridade do médium ou do Espírito comunicante. Ele instituiu o Controle Universal do Ensino dos Espíritos justamente para evitar personalismos, mistificações e a aceitação cega de qualquer revelação. A recomendação permanece atual: toda informação deve ser examinada à luz da razão, da lógica e da concordância com os princípios fundamentais da Doutrina.

Estas palavras não constituem uma crítica a Chico Xavier, por quem continuo nutrindo profunda admiração e respeito. Muito menos desmerecem a importância de sua obra. São apenas um convite à reflexão. O Espiritismo não nos pede fé cega; convida-nos ao estudo, ao discernimento e ao exame criterioso das ideias.

Talvez seja este o maior legado de Allan Kardec: ensinar-nos que a verdade não teme perguntas e que a fidelidade ao Cristo exige, acima de tudo, humildade para estudar, coragem para refletir e bom senso para não transformar interpretações humanas em verdades absolutas.

Sandra Fiore

quarta-feira, 22 de julho de 2026

 

                                    A Pedagogia da Dor -  Lições para a Alma

               

 

Vivemos em um mundo em que a dor é inevitável. Jesus mesmo afirmou que, na Terra, teríamos aflições. Entretanto, embora a dor seja uma realidade comum a todos, o sofrimento é experimentado de maneira diferente por cada pessoa. Essa diferença está diretamente relacionada ao estágio evolutivo do Espírito, à forma como interpreta as experiências da vida e aos recursos morais que já conquistou.

Habitamos um mundo de provas e expiações, onde convivem Espíritos em diferentes graus de desenvolvimento. Alguns já despertaram para os valores do amor, da compaixão e da fraternidade; outros, ainda profundamente vinculados ao egoísmo e ao orgulho, permanecem em estágios mais primitivos da evolução. São aqueles que ainda não permitiram que a mensagem do Cristo tocasse profundamente a própria alma.

Para compreendermos melhor a finalidade da dor, recorremos aos ensinamentos de Joanna de Ângelis, na obra Vida Feliz, psicografada por Divaldo Pereira Franco:

"Ninguém colhe em seara alheia o que não haja semeado, no que diz respeito aos valores morais. (...) Cada um é herdeiro de si mesmo. (...) Espírito imortal que é, evolui de etapa em etapa, como aluno em educandário de amor, repetindo a lição quando erra e sendo promovido quando acerta. (...) Numa existência dá prosseguimento ao que deixou interrompido na outra, corrige o que fez errado ou inicia uma experiência nova. O que, porém, não realiza por amor, a dor o convocará a executar." 

Essa reflexão nos leva à compreensão da Lei de Causa e Efeito. Gosto de comparar a vida a um bumerangue: quando o lançamos, ele inevitavelmente retorna às nossas mãos. Assim também acontece com nossas ações. Tudo o que pensamos, sentimos e fazemos retorna para nós, mais cedo ou mais tarde. A semeadura é livre, mas a colheita é inevitável.

Essa lei não deve ser vista como um castigo divino, mas como um mecanismo educativo da justiça e do amor de Deus. Quem planta violência colherá as consequências da violência; quem cultiva a bondade encontrará paz e oportunidades de crescimento. Da mesma forma que um agricultor não pode colher laranjas depois de plantar espinhos, também nós colhemos os frutos das sementes morais que lançamos ao longo da existência.

Na grande escola da vida, porém, nem todos os alunos se encontram na mesma série. Alguns já aprenderam importantes lições. Ainda erram, naturalmente, mas possuem consciência dos próprios atos, esforçam-se para reparar seus equívocos e procuram fazer o bem sempre que possível.

Outros, entretanto, permanecem espiritualmente mais infantis. São aqueles que ainda encontram satisfação na violência, na corrupção, na exploração do semelhante, nas guerras ou na indiferença diante da dor alheia. Sob a ótica da Doutrina Espírita, não são Espíritos condenados, mas Espíritos ainda primitivos, que necessitam de muitas experiências educativas para despertar os sentimentos superiores que um dia também florescerão em seus corações.

Joanna de Ângelis, utilizando conceitos da Psicologia Profunda, explica que o ser humano transita do id, passa pelo ego e caminha em direção ao superego, simbolizando a jornada de integração e amadurecimento da consciência.

Gosto de imaginar esse processo como a travessia de três pontes. Na primeira, encontram-se aqueles que vivem quase exclusivamente dominados pelos impulsos, pelos instintos e pelos desejos imediatos. Na segunda ponte estão aqueles que já despertaram para valores morais, mas ainda travam intensas lutas entre o egoísmo e o altruísmo. Já na terceira ponte encontramos os Espíritos que fizeram do Evangelho um modo de viver. São pessoas que colocam o bem do próximo acima dos próprios interesses, que perdoam com facilidade, exercitam a humildade e sofrem ao ver o sofrimento do semelhante, porque aprenderam a amar.

Podemos observar essas diferenças no cotidiano. Diante de uma pessoa em situação de rua, por exemplo, alguns passam indiferentes; outros sentem compaixão, mas nada fazem; e há aqueles que, além da compaixão, procuram ajudar, oferecendo alimento, uma palavra de esperança ou indicando caminhos para sua recuperação. A situação é a mesma; o que muda é o grau de evolução moral de quem a presencia.

Da mesma forma, quando alguém nos ofende, podemos reagir com violência, guardar ressentimento por muitos anos ou, após refletirmos, compreender as limitações do outro e escolher o perdão. Cada reação revela o ponto da caminhada espiritual em que nos encontramos.

Estudar o Evangelho, refletir sobre seus ensinamentos e compreender a Doutrina Espírita é extremamente importante. Contudo, o conhecimento, por si só, não transforma ninguém. O essencial é vivenciar o Evangelho nas pequenas atitudes do dia a dia: na paciência, na indulgência, na honestidade, na solidariedade e no amor ao próximo.

Por essa razão, Allan Kardec escolheu como lema do Espiritismo uma das mais profundas verdades ensinadas por Jesus: "Fora da caridade não há salvação." A verdadeira evolução não é medida pelo quanto sabemos, mas pelo quanto amamos e servimos. O conhecimento ilumina a mente; a caridade transforma o coração.

Sandra Fiore

sexta-feira, 3 de julho de 2026

 

                  A Doutrina Não Tem Preço     

 

                Sei que jamais haverá consenso de opiniões — e ainda bem que seja assim. Somos individualidades únicas, trazendo conosco experiências, valores, conhecimentos e formas próprias de compreender e assimilar os mais diversos temas. A unanimidade, além de improvável, talvez nem seja desejável, pois o pensamento crítico nasce justamente da diversidade de perspectivas. A questão que proponho para reflexão talvez seja uma daquelas sobre as quais dificilmente haverá concordância plena.

Jamais ofenderia alguém por pensar diferente de mim, inclusive quando o assunto é a própria Doutrina Espírita. Discordo de muitas interpretações feitas da obra de Allan Kardec, especialmente daquelas que enfatizam apenas o aspecto religioso assumido pelo Espiritismo no Brasil. Na minha humilde compreensão, Kardec sempre apresentou o Espiritismo em seu tríplice aspecto: ciência que investiga os fenômenos espirituais, filosofia que questiona e busca compreender a existência, e religião apenas no sentido moral, isto é, como um sentimento que religa o ser humano ao Divino por meio da transformação íntima.

Não compreendo religião, nesse contexto, como um conjunto de rituais, dogmas, símbolos, hierarquias ou formalismos exteriores. Por defender essa visão, já deixei de ser convidada para algumas palestras, mas isso nunca me impediu de expressar aquilo que, sinceramente, acredito estar mais próximo do pensamento kardequiano.

O que realmente gostaria que fosse diferente diz respeito a algumas pessoas que conquistaram notoriedade pelo excelente trabalho de divulgação da Doutrina Espírita, mas que, em determinados momentos, parecem esquecer justamente o ensinamento que deveria ser sua maior referência: a humildade.

Soube, por exemplo, de um evento em que o palestrante teria solicitado um valor de alguns milhares de reais para participar. Também observo a oferta de cursos espíritas com preços elevados nas plataformas digitais. Evidentemente, organizar eventos gera despesas e produzir conteúdo de qualidade exige tempo e dedicação. Entretanto, quando a divulgação da doutrina passa a assumir características de atividade altamente lucrativa, acredito que seja oportuno refletirmos se isso está em plena sintonia com os princípios de simplicidade e desprendimento ensinados por Jesus e vivenciados pelos grandes exemplos do movimento espírita.

Sempre me recordo de Chico Xavier. Para mim, além de ter sido talvez a maior antena mediúnica que o Brasil conheceu, foi, acima de tudo, um ser humano extraordinário. Minha admiração por Chico não decorre apenas de sua mediunidade, mas principalmente da grandeza de seu coração.

Seu pensamento estava constantemente voltado ao próximo. Perguntava-se de que maneira poderia aliviar a dor de alguém, oferecer consolo ou diminuir o sofrimento de um irmão. Publicou centenas de livros, mas jamais utilizou os direitos autorais em benefício próprio. Toda a renda foi destinada às obras assistenciais. Nasceu pobre e desencarnou com a mesma simplicidade. Seu maior patrimônio foi o amor ao semelhante.

Conta-se que ele ajudava a manter o centro espírita que frequentava. Muitas pessoas humildes chegavam de bairros distantes ou da zona rural em busca de orientação e conforto. Havia sempre um pequeno lanche para recebê-las, mas Chico sentia que podia fazer mais.

Passou, então, a pedir a Deus a oportunidade de conseguir um emprego melhor para aumentar sua renda e, assim, oferecer uma refeição mais digna aos necessitados. Frequentemente perguntava ao benfeitor Emmanuel se conseguiria essa oportunidade. Emmanuel respondia apenas: "Continue trabalhando; quem sabe?"

Depois de muito tempo, Chico brincou dizendo que talvez fosse necessário pedir a Deus um novo mentor espiritual. Era, evidentemente, uma brincadeira carinhosa. Algum tempo depois, conseguiu um emprego que lhe proporcionou um salário muito maior. Sua alegria não estava no aumento dos próprios recursos, mas na possibilidade de servir melhor, oferecendo, além de um simples lanche, uma refeição mais completa para aqueles que chegavam com fome.

Chico Xavier permanece, sem dúvida, como um dos maiores exemplos de desprendimento, humildade e vivência do Evangelho. Nele, a mensagem de Jesus deixou de ser apenas discurso para transformar-se em testemunho.

Por isso, causa tristeza perceber quando a Doutrina Espírita é utilizada como instrumento de promoção pessoal ou quando a divulgação do Consolador Prometido parece aproximar-se da lógica do mercado. É natural que eventos tenham custos, que livros sejam publicados e que existam despesas administrativas. Tudo isso faz parte da realidade material. Entretanto, talvez devêssemos buscar alternativas que preservassem o caráter essencialmente fraterno da divulgação doutrinária, seja por meio de patrocinadores, do apoio das instituições ou de valores verdadeiramente acessíveis à maioria das pessoas.

Vale lembrar o próprio exemplo de Allan Kardec. Quando decidiu lançar, em janeiro de 1858, a Revista Espírita, assumiu pessoalmente todos os custos iniciais da publicação. Diante da enorme quantidade de relatos sobre fenômenos mediúnicos que recebia e da necessidade de criar um espaço para estudo, análise e esclarecimento, não encontrou colaboradores dispostos a financiar o projeto. Mesmo sendo educador e editor, investiu recursos próprios para garantir a publicação mensal da revista, que se transformaria em um verdadeiro laboratório de pesquisas e em um dos pilares da consolidação do Espiritismo.

Talvez esse seja um exemplo digno de permanente reflexão. A divulgação da Doutrina Espírita constitui, antes de tudo, uma tarefa de serviço ao próximo. Mais importante do que divulgar por meio das palavras, dos livros ou das palestras é testemunhar seus princípios na própria vida. Afinal, a maior propaganda do Espiritismo nunca será o brilho da oratória, mas a luz do exemplo. Como ensinou Kardec, "o verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações". É esse testemunho silencioso que confere autoridade às palavras e fidelidade ao Evangelho de Jesus.

Sandra Fiore

 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

 

    Deus está morto: a crítica de Nietzsche e a visão espírita


Antes de tudo, é importante compreender o significado da palavra filosofia. De origem grega, ela significa "amor à sabedoria". Filosofar é refletir sobre as questões fundamentais da existência humana, pois quem filosofa sente a necessidade de compreender, perguntar, investigar e buscar um sentido mais profundo para viver. Entretanto, filosofar não é um privilégio reservado aos grandes pensadores ou às universidades. Todos nós, em algum momento da vida, fazemos filosofia. Quando uma mãe se pergunta como educar um filho em um mundo tão complexo; quando alguém perde um ente querido e questiona se a morte representa realmente o fim; quando um jovem procura descobrir qual caminho dará sentido à sua existência; quando um trabalhador honesto se pergunta por que tantos desonestos parecem prosperar, todos estão filosofando. São perguntas que ultrapassam o imediato e revelam a inquietação natural do espírito humano diante do mistério da vida.

               Ao longo da história, grandes pensadores dedicaram-se a esse esforço de compreender a existência. Questionaram valores, confrontaram crenças, desafiaram tradições e procuraram construir respostas capazes de orientar a vida humana. Afinal, muitas vezes é a pergunta correta que nos aproxima da resposta transformadora. Não por acaso, Sócrates afirmava que "uma vida sem exame não merece ser vivida". Séculos mais tarde, Allan Kardec adotaria exatamente essa postura filosófica. Em vez de aceitar respostas prontas, perguntou, investigou, comparou milhares de comunicações mediúnicas e submeteu tudo ao crivo da razão. O Espiritismo nasce, assim, de uma atitude profundamente filosófica: perguntar antes de acreditar, compreender antes de aceitar.

                Contudo, compreender os filósofos nem sempre é tarefa simples. Muitos deles voltaram sua atenção apenas para o mundo material, construindo sistemas de pensamento que se limitavam ao aqui e agora e ignoravam a dimensão espiritual da existência. Para nós, que seguimos a Doutrina Espírita — estruturada sobre os pilares da ciência, da filosofia e da religião —, a realidade é muito mais ampla. O ser humano não é apenas um organismo biológico destinado ao desaparecimento. É um espírito imortal, viajante do infinito, que utiliza temporariamente o corpo físico como instrumento de aprendizado e progresso. Sob essa perspectiva, os problemas deixam de ser castigos e passam a representar oportunidades educativas; as dores deixam de ser absurdos da existência para se tornarem consequências naturais de nossas escolhas, tanto do presente quanto de experiências anteriores, convidando-nos à renovação moral e ao crescimento espiritual.

                Entre os filósofos mais influentes da modernidade destaca-se Jean-Paul Sartre, um dos principais representantes do existencialismo ateu. Para ele, a vida começava no berço e terminava no túmulo. Sem uma existência anterior e sem continuidade após a morte, caberia ao próprio homem construir sozinho o significado de sua vida. Sua companheira, Simone de Beauvoir, expressou de forma profundamente comovente essa visão ao concluir seu livro La Force des Choses

"Detesto pensar no meu aniquilamento. Penso com melancolia nos livros lidos, nos lugares visitados, no saber acumulado e que não mais existirá. Toda a música, toda a pintura, tantos lugares percorridos — e de repente mais nada!"

                 Essa reflexão traduz a angústia de quem acredita que a morte apaga definitivamente tudo aquilo que fomos e construímos. Se tudo termina no túmulo, qual seria, afinal, o sentido último do sacrifício de uma mãe pelos filhos? Por que perdoar alguém que jamais reconhecerá seu erro? Qual o valor da honestidade quando ninguém está olhando? Se a existência termina no nada, muitas das mais nobres atitudes humanas parecem perder seu fundamento mais profundo. É o peso do niilismo, que transforma até mesmo as mais belas experiências da vida em lembranças destinadas ao esquecimento absoluto.

                Mas que bênção é termos acesso à Doutrina Espírita, que nos oferece uma visão infinitamente mais consoladora e, ao mesmo tempo, mais racional. A morte não representa um fim, mas apenas uma mudança de estado. A vida continua no plano espiritual, e a reencarnação nos proporciona novas oportunidades de aprender, reparar nossos equívocos e prosseguir nossa evolução. Aquilo que, para o existencialismo materialista, parece ser o encerramento definitivo da existência é, para o Espiritismo, apenas o início de uma nova etapa da grande jornada do espírito imortal.

               Outro nome incontornável da filosofia moderna é Friedrich Nietzsche, nascido em 1844, na antiga Prússia. Brilhante, provocador e profundamente crítico de sua época, ele denunciou aquilo que considerava a decadência dos valores ocidentais. Sua célebre frase — "Deus está morto" — talvez seja uma das mais mal compreendidas da história da filosofia. Nietzsche não pretendia demonstrar filosoficamente que Deus não existia. Sua denúncia era muito mais profunda. Ele observava uma sociedade que continuava falando em Deus, mas vivia como se Deus não existisse. Via templos cheios, mas consciências vazias; discursos religiosos, mas comportamentos profundamente egoístas; práticas de culto sem verdadeira transformação moral.

               Segundo Nietzsche, o desaparecimento dos valores religiosos tradicionais deixava o homem mergulhado no niilismo, isto é, na sensação de que nada possuía sentido definitivo. Sua resposta foi propor o Übermensch, o além-do-homem, aquele que seria capaz de criar novos valores por si mesmo e afirmar a vida sem depender da religião.

               Diante dessa análise, nós, espíritas, podemos fazer uma reflexão muito interessante. Talvez Nietzsche tenha percebido um problema real, embora sua solução fosse diferente daquela apresentada pelo Espiritismo. Afinal, quantas vezes dizemos acreditar em Deus, mas vivemos como se Ele estivesse ausente de nossas escolhas? Falamos em fraternidade e alimentamos o ódio nas redes sociais. Defendemos a paz, mas cultivamos a agressividade dentro de casa. Ensinamos honestidade aos filhos, mas buscamos pequenos privilégios quando acreditamos que ninguém está olhando. Frequentamos templos religiosos e, ao mesmo tempo, permanecemos indiferentes à dor daqueles que sofrem ao nosso lado.

                 Nesse sentido, podemos dizer simbolicamente que estamos "matando Deus" dentro de nós, não porque Deus possa morrer — pois Ele é eterno, infinito, soberanamente justo e bom —, mas porque sufocamos Sua presença em nossa consciência.

               Matamos Deus quando destruímos a natureza por interesses imediatos; quando banalizamos a vida humana; quando aceitamos a corrupção como algo normal; quando humilhamos alguém por ocupar uma posição social inferior; quando espalhamos notícias falsas capazes de destruir reputações; quando fechamos os olhos diante da fome, da violência e da exclusão; quando permanecemos indiferentes às crianças abandonadas, aos idosos esquecidos, às vítimas do preconceito ou aos que sofrem em silêncio. Cada vez que escolhemos o egoísmo em lugar da solidariedade, a violência em vez do diálogo ou a vingança em lugar do perdão, obscurecemos em nós a presença da Lei Divina.

               A grande pergunta, então, não é se Deus morreu, mas se ainda existe espaço para Deus dentro de nossa consciência.

               É exatamente aqui que Allan Kardec oferece uma das mais belas contribuições filosóficas da história. Logo na primeira pergunta de O Livro dos Espíritos, ele demonstra extraordinária profundidade ao perguntar: "Que é Deus?

               Essa escolha não foi casual. Kardec não perguntou "Quem é Deus?", pois isso nos levaria naturalmente a imaginar uma pessoa semelhante a nós, apenas infinitamente mais poderosa. Ao perguntar "Que é Deus?", ele rompe com o antropomorfismo e desloca a reflexão para a essência do divino.

               Ao longo da história, a humanidade precisou representar Deus como um Pai, um Rei ou um Juiz porque ainda não possuía recursos intelectuais para compreender uma realidade infinita. Era uma etapa necessária da educação espiritual da humanidade. Kardec, porém, inaugura uma compreensão muito mais elevada. Deus deixa de ser concebido como uma figura humana engrandecida e passa a ser entendido como o Princípio Supremo que sustenta toda a criação.

               A resposta dos Espíritos superiores sintetiza essa revolução filosófica em poucas palavras:

"Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas."

               Essa definição dialoga com a razão, com a ciência e com a espiritualidade. Ela liberta a ideia de Deus das limitações humanas e nos convida a compreender o Universo como expressão de uma Inteligência perfeita, cujas leis se manifestam na harmonia da criação e na evolução incessante dos espíritos.

               É essa a grande tarefa do nosso tempo: renascer espiritualmente. Precisamos reconstruir nossa existência sobre bases mais sólidas, cultivando uma fé raciocinada que não tema a ciência nem permaneça aprisionada aos dogmas. Jesus prometeu o Consolador exatamente para isso: para que a humanidade não se perdesse na escuridão do materialismo e do niilismo, mas encontrasse, na imortalidade da alma, na reencarnação e na lei de causa e efeito, o verdadeiro sentido da existência.

               O Espiritismo nos ensina que nada acontece por acaso. Toda dor possui uma causa justa, ainda que muitas vezes desconhecida por nós; toda conquista é fruto do esforço; toda dificuldade pode transformar-se em oportunidade de crescimento. Assim como o agricultor colhe aquilo que semeia, o estudante recebe os frutos do próprio esforço e o profissional honesto conquista confiança ao longo dos anos, também nós colhemos, na vida espiritual, as consequências de nossos pensamentos, sentimentos e ações. Deus não distribui privilégios nem castigos arbitrários; oferece a todos, indistintamente, oportunidades permanentes de aprendizado e evolução

              Nesse horizonte, a vida deixa de ser um breve intervalo entre o nada e o nada para transformar-se em uma magnífica jornada de aperfeiçoamento espiritual. Cada experiência, alegre ou dolorosa, converte-se em um degrau na construção da própria felicidade. O ser humano já não é um viajante perdido em um universo indiferente, mas um espírito imortal chamado a desenvolver a inteligência, o amor e a fraternidade como fundamentos de uma nova humanidade.

                Talvez, no fundo, a maior pergunta não seja simplesmente se Deus existe, mas se permitimos que Sua Lei de Amor governe nossas escolhas. Deus continua vivo, sustentando o Universo com infinita sabedoria. A questão é saber se O deixamos viver dentro de nós. Cada gesto de bondade amplia essa presença; cada ato de egoísmo a obscurece. A regeneração do mundo não começará por grandes acontecimentos históricos, mas pela transformação silenciosa de cada consciência. E, quando compreendermos que amar é a mais elevada expressão da inteligência espiritual, perceberemos que Deus nunca esteve morto. Ele sempre esteve presente, esperando pacientemente que despertássemos para a Sua lei de amor e fraternidade.


               Sandra Fiore

    

        


quinta-feira, 18 de junho de 2026

 

  Acolhimento -  Porta de Entrada para a Renovação Interior

        Vivemos um tempo em que o sofrimento psíquico se tornou quase um fenômeno coletivo. Ansiedade, depressão, solidão, desamparo emocional e a dolorosa sensação de vazio alcançam pessoas de todas as idades. A modernidade acelerada, a competitividade, os conflitos familiares, o distanciamento humano, as perdas sucessivas e a falta de tempo para sentir têm deixado muitos corações à deriva, fragilizados e cansados de lutar.

Nesse cenário, a casa espírita surge como porto seguro — um espaço onde a alma pode repousar, ser ouvida, compreendida e amparada. Acolher, à luz do Espiritismo, não é apenas oferecer um sorriso cordial na porta de entrada; é abrir-se para o outro com empatia real, escuta ativa, ausência de julgamento e a consciência profunda de que cada pessoa traz feridas invisíveis e histórias que desconhecemos.

O acolhimento é indispensável porque lembra que, na casa espírita, não lidamos apenas com ideias, livros ou conceitos doutrinários, mas com seres humanos que sentem, sofrem, buscam apoio e desejam reencontrar um horizonte. A fé raciocinada nasce do esclarecimento — e o esclarecimento, quando bem oferecido, consola. Como doutrina pedagógica, o Espiritismo convida cada frequentador ao estudo e à reflexão. Sem proselitismo, o amadurecimento natural fará com que cada um permaneça pelo coração, não pela imposição.

Quando alguém é verdadeiramente acolhido, sente-se à vontade para retornar, participar e se integrar. Muitas vezes, é esse gesto simples — mas profundo — que impede um irmão de desistir de si mesmo.

Em Obras Póstumas, no capítulo “Os Tempos São Chegados”, Allan Kardec prevê que os grandes desequilíbrios emocionais — à época chamados de “loucura”, hoje compreendidos como transtornos mentais — atingiriam proporções inéditas. Ele afirma:

“Os suicídios se multiplicarão em proporções inauditas, até entre as crianças... A loucura jamais terá ferido tão grande número de homens, que serão, antes da morte natural, riscados do número dos vivos.”

À luz da terminologia atual, entendemos que Kardec se referia ao sofrimento psíquico profundo, às perturbações emocionais graves, às crises de sentido, à exaustão moral que hoje assolam a humanidade. Sua previsão ecoa com força em nossos dias: aumento da ansiedade e depressão, sensação de vazio existencial, desgaste emocional que atinge crianças, adolescentes, adultos e idosos, além do crescimento mundial das tentativas de suicídio.

Quando Kardec afirma que muitos seriam “riscados do mundo dos vivos antes da morte natural”, ele se refere ao estado de desconexão interior — seres biologicamente vivos, mas emocional e espiritualmente exauridos, como se vivessem uma morte moral temporária, clamando por cuidado, acolhimento e esclarecimento. O alerta também abrange aqueles que, tomados pelo desespero, atentariam contra a própria existência antes do tempo.

Sua advertência permanece atual: quanto mais a humanidade avança intelectualmente sem o correspondente avanço moral, mais intensos serão os choques produzidos pela própria desarmonia.

É por isso que, hoje, a casa espírita se torna tão necessária: um espaço de acolhimento, escuta, diálogo fraterno e luz doutrinária, capaz de ajudar corações fragilizados a reencontrarem equilíbrio, sentido e direção.

No entanto, estamos assistindo ao esvaziamento de muitas instituições espíritas — e isso precisa ser encarado com seriedade. A repetição mecânica, a falta de renovação, a ausência de preparo doutrinário e emocional de alguns trabalhadores têm afastado pessoas que poderiam se encantar com a Doutrina e transformar suas vidas.

Há casas que se acomodaram. Não investem na formação dos trabalhadores, no desenvolvimento dos expositores, nem na preparação de médiuns sensíveis às dores alheias. Vemos dirigentes presos a modelos antigos, sem entusiasmo, sem criatividade e sem visão de futuro. Como esperar que o público permaneça se as palestras — que deveriam iluminar consciências — se tornam monótonas, superficiais e desprovidas de sentimento?

O conhecimento espírita é vivo, profundo e transformador; mas, para tocar corações, precisa ser transmitido com preparo, autenticidade e vibração interior.

E quanto às crianças e aos jovens? Não é possível ensiná-los como fazíamos há décadas. Vivemos em uma geração dinâmica, tecnológica e visual. Se não atualizarmos a forma de transmitir, perderemos exatamente aqueles que têm nas mãos a construção de um mundo moralmente mais lúcido.

Outro aspecto sério merece reflexão: muitas casas têm fechado suas portas para trabalhadores vindos de outros centros, mesmo quando já atuavam com seriedade e preparo. Alguns dirigentes exigem que o trabalhador “recomece” todo o percurso pelo método da casa, sem ao menos realizar uma entrevista para avaliar sua experiência. Muitos se desanimam diante dessa barreira. Trata-se de uma postura contrária ao ideal de caridade, pois impede que corações dispostos a servir encontrem espaço para colaborar.

Até mesmo entre as federativas, poucas demonstram preocupação real com o presente e o futuro do movimento. Muitas se perdem em burocracias e modelos ultrapassados, distanciados das urgências morais, sociais e emocionais do nosso tempo.

É hora de reflexão profunda. É hora de renovação responsável, corajosa e amorosa. O Espiritismo permanece lúcido, atual e vibrante — mas o movimento humano que o representa precisa despertar

Só um coração sereno consegue assimilar a mensagem do Cristo. A calma interior não nega a dor; ela a ilumina. Quando a alma encontra um ponto de serenidade, mesmo pequeno, torna-se receptiva ao amparo espiritual. A fé raciocinada nasce da reflexão tranquila e do silêncio que permite que a verdade ressoe no íntimo.

Consolar e esclarecer são movimentos inseparáveis na pedagogia espírita: quando o coração se aquieta, a esperança renasce; quando a esperança renasce, a transformação começa.

Joanna de Ângelis nos lembra que muitos transtornos psíquicos refletem conflitos íntimos, culpas silenciosas, medos profundos e desarmonias do espírito. O acolhimento não é a cura — mas é a chave que abre a porta da cura. Ao ser ouvido com respeito, o ser humano baixa suas defesas, respira e reencontra-se. Então, sim, pode iniciar sua renovação.

Acolher é oferecer ao outro a chance de se reerguer, de redescobrir a própria força, de perceber que a luz ainda o acompanha — mesmo quando julgava caminhar no escuro. É por isso que Jesus acolheu antes de ensinar, amou antes de corrigir, amparou antes de orientar. A casa espírita continua essa mesma obra.

Hoje, mais do que nunca, o trabalhador espírita é chamado a desenvolver sensibilidade, paciência e preparo moral e doutrinário. Para muitos irmãos, entrar em um centro espírita é um ato de coragem. Chegam marcados por culpas antigas, medos inconfessáveis, dores profundas e uma sede quase desesperada de paz.

Assim, o trabalhador é convidado a ser presença fraterna, palavra que conforta, vibração que harmoniza. Não basta repetir conceitos: é preciso vivê-los. O acolhimento sincero abre caminhos, fortalece almas e cria o terreno onde o Evangelho floresce.

Acolher é dizer, sem palavras: “Você não está só. Aqui você pode respirar, ser ouvido, ser respeitado e ser amado.” Esse é o verdadeiro papel do Espiritismo na atualidade: ser farol, ser abraço, ser caminho de reconexão com a vida.

Sandra Fiore

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Podemos estar nos deixando enganar

 

                    Podemos estar nos deixando enganar

Muitos se dizem espíritas, mas ainda não compreenderam, em profundidade, a finalidade do Espiritismo.

Allan Kardec deixou isso muito claro ao definir a Doutrina Espírita como possuidora de um tríplice aspecto:

·         uma ciência, que investiga os fenômenos por meio de métodos;

·         uma filosofia, que busca compreender a realidade à luz da razão;

·         e um sentimento religioso, que tem como eixo central a moral.

Sob essa perspectiva, podemos afirmar que o Espiritismo abrange diversas áreas do conhecimento humano, o que nos permite compreendê-lo também como uma doutrina essencialmente pedagógica, voltada à educação integral do ser.

Causa-nos profunda tristeza observar pessoas que fazem um “espiritismo à moda da casa”, adotando práticas estranhas e, muitas vezes, divergentes da Codificação Kardeciana. Não se trata de negar que o Espiritismo seja uma doutrina progressista — ele o é. No entanto, ainda não assimilamos plenamente tudo o que Kardec nos deixou para, então, promover mudanças significativas no campo doutrinário.

O progresso é natural e necessário, sobretudo na forma de executar algumas práticas, como o estudo com jovens e adolescentes, que pertencem a uma geração com ampla bagagem informacional e tecnológica. Precisamos acompanhar a evolução dos métodos pedagógicos, da linguagem e dos recursos, sem jamais recorrer a práticas que contrariem os princípios kardecianos.

Recentemente, encontrei no YouTube um canal que leva o nome de um Espírito muito conhecido entre os espíritas, reconhecido por contribuições relevantes não apenas no campo moral, mas também no científico. No entanto, esse canal é inteiramente dedicado à propaganda política, venerando um determinado político como se fosse um enviado divino para salvar a humanidade, enquanto o outro é apresentado como representante das “trevas”.

Pergunto-me, com sincera preocupação: seria plausível que um Espírito sério se prestasse a esse papel, tomando partido político e fazendo propaganda ideológica?

Tenho afirmado, reiteradas vezes, que Espiritismo é uma coisa; opiniões pessoais, mesmo atribuídas a Espíritos, são outra. A Doutrina foi trazida pelos Espíritos superiores, mas passou por um trabalho rigoroso e criterioso de Kardec, que teve extremo cuidado para não se deixar enganar por Espíritos pseudo-sábios. Por isso, utilizou métodos, comparações e o controle universal do ensino dos Espíritos como forma de se aproximar da verdade.

O alerta está dado: especialmente em períodos eleitorais, não podemos misturar política partidária com a Doutrina Espírita. Isso não significa negar a importância da política na vida social, mas reconhecer que, no âmbito espírita, ela deve ser abordada apenas sob a ótica da ética, da moral e da responsabilidade social, jamais da ideologia ou da militância.

Precisamos estar atentos para que o clima de polarização não abra brechas às más influências espirituais. O respeito à democracia é fundamental para a construção de um mundo mais fraterno, onde cada indivíduo tenha o direito de seguir seu caminho, conforme suas escolhas, desejos e intenções.

Devemos lembrar que, vivendo em um mundo de provas e expiações, cada Espírito traz sua própria bagagem evolutiva, e não nos cabe nivelar consciências ou impor verdades.

Kardec nos advertiu insistentemente sobre a importância do uso da razão e do bom senso. No entanto, parece que essa prática nem sempre é comum, inclusive entre aqueles que possuem formação acadêmica, mas que, muitas vezes, se deixam conduzir pelo orgulho, acreditando-se acima dos outros. Conhecimento intelectual, por si só, não é sinônimo de acerto moral, pois é possível saber muito e, ainda assim, não saber o que fazer com esse saber, deixando-se guiar pelas paixões.

Tenho visto, inclusive, algumas comunicações que me causam grande preocupação, especialmente por serem assinadas por Espíritos de elevada envergadura moral. Isso revela a falta de critério e de análise rigorosa, assim como ocorre com muitos livros psicografados que apresentam informações divergentes da Codificação Espírita.

Mais uma vez, é importante lembrar: o Espiritismo é progressista, mas toda nova informação precisa passar pelo crivo da universalidade e da razão. Mesmo os Espíritos podem se enganar, pois não são detentores de todo o saber. Se assim fossem, não precisariam reencarnar — como foi o caso do próprio Emmanuel

Vigiemos, portanto, nossos pensamentos e atitudes. Respeitemos o próximo e suas escolhas, mesmo quando as consideramos equivocadas, pois é assim que gostaríamos de ser tratados. Para ilustrar o estágio evolutivo em que cada um se encontra, recordo o Mito da Caverna de Platão.

Nessa alegoria, Platão descreve pessoas que vivem desde o nascimento acorrentadas dentro de uma caverna, voltadas apenas para uma parede, sem jamais ver a luz do sol. A única realidade que conhecem são as sombras projetadas na parede por objetos que passam diante de uma fogueira. Para elas, essas sombras constituem toda a realidade existente

Quando um dos prisioneiros se liberta e sai da caverna, seus olhos doem diante da luz, mas, aos poucos, ele passa a enxergar cores, formas e dimensões antes inimagináveis. Compreende, então, que aquilo que antes tomava como realidade era apenas uma sombra da verdade.

O Mito da Caverna simboliza a libertação da ignorância e a busca pela verdade, destacando a importância da educação, da reflexão crítica e do uso da razão. É exatamente disso que precisamos: instrução como ferramenta educativa e da filosofia como caminho para o entendimento racional.

Somente assim evitaremos o engano. Afinal, não são os outros que nos enganam; somos nós que nos permitimos ser enganados quando deixamos de raciocinar, questionar e refletir.

Sandra Fiore