Espiritismo e
política
Estamos
vivendo um período em que as paixões políticas estão à flor da pele. A
polarização alcançou níveis preocupantes e, muitas vezes, transforma
adversários políticos em inimigos. Pessoas deixam de ouvir, de dialogar e até
de questionar as próprias convicções. Ideias tornam-se cristalizadas, e a
emoção passa a ocupar o lugar da reflexão.
É justamente
nesse cenário que surge uma pergunta que não podemos evitar: o Espiritismo pode
e deve envolver-se com política?
Para
responder, precisamos recorrer às obras da Codificação Espírita e,
principalmente, compreender uma distinção fundamental: política não é sinônimo
de partidarismo.
A política, em
seu sentido mais amplo, faz parte da vida humana. Diz respeito à organização da
sociedade, às leis, à justiça, à liberdade, à igualdade, aos direitos e
deveres, à administração dos recursos públicos e às decisões que afetam a
coletividade. Portanto, não faria sentido imaginar o ser humano espírita
completamente alheio às questões sociais.
Outra coisa,
porém, é transformar o Centro Espírita ou o movimento espírita em espaço de
disputa partidária, propaganda eleitoral ou defesa de candidatos.
O que
encontramos em Kardec? Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec trata de questões
que possuem profundas consequências sociais. As perguntas sobre igualdade,
liberdade, justiça, propriedade, leis, governo, sociedade e progresso mostram
que o Espiritismo não ignora a vida coletiva.
Na questão
793, por exemplo, Kardec pergunta: “Por que sinais se pode reconhecer uma
civilização completa?”
A resposta
relaciona o verdadeiro progresso à superação do egoísmo, à justiça e ao
desenvolvimento moral. Isso nos leva a uma reflexão importante: uma sociedade
pode ser tecnologicamente avançada e, ao mesmo tempo, moralmente atrasada?
Basta observar
a história. A humanidade conseguiu chegar à Lua, desenvolver inteligência
artificial, realizar transplantes de órgãos e produzir tecnologias
extraordinárias. Entretanto, ainda convivemos com guerras, corrupção,
desigualdade, violência, intolerância e discursos de ódio.
Portanto,
progresso material não significa necessariamente progresso moral.
O Espiritismo
é apolítico? Não. O Espiritismo não é apolítico no sentido de ser indiferente
aos problemas da sociedade. Ele possui uma concepção de ser humano e de
sociedade e apresenta princípios relacionados à justiça, liberdade,
responsabilidade, fraternidade e progresso. O que deve ser evitado é a
partidarização da Doutrina Espírita.
Um Centro
Espírita deve ser um espaço onde pessoas de diferentes posições políticas
possam estudar, refletir, conviver e exercitar a fraternidade. Se uma pessoa é
de esquerda, outra de direita, outra de centro ou simplesmente não se
identifica com nenhuma dessas posições, todas devem encontrar ali o mesmo
respeito.
Imagine, por
exemplo, uma reunião mediúnica ou um estudo doutrinário em que alguém começa a
defender determinado candidato e outro participante passa a atacá-lo.
Rapidamente, o ambiente que deveria favorecer a reflexão espiritual
transforma-se em uma disputa política.
Nesse momento,
deixamos de discutir ideias para defender identidades. E esse é um dos grandes
perigos da polarização. Quando o político se transforma em paixão. O problema
não está apenas na política, mas na maneira como nos relacionamos com ela.
Podemos
discordar de alguém sem desrespeitá-lo. Podemos considerar determinada proposta
equivocada sem transformar quem a defende em uma pessoa má. Podemos votar em
candidatos diferentes e continuar amigos, familiares e irmãos na humanidade.
Entretanto,
quando passamos a acreditar que somente o nosso lado representa o bem, entramos
em um terreno perigoso.
É comum
encontrarmos nas redes sociais pessoas tratando determinado político como se
fosse um salvador da pátria, enquanto o adversário é apresentado como a própria
encarnação do mal.
Isso deveria
provocar em nós uma reflexão espírita. Por que transferimos para seres humanos
imperfeitos expectativas que deveriam estar relacionadas ao nosso próprio
processo de transformação? Nenhum político é messias. Nenhum partido possui o
monopólio da verdade. Nenhum grupo humano é constituído exclusivamente por
pessoas boas ou más.
O espírita,
justamente por compreender a condição evolutiva do ser humano, deveria ter
cautela diante da idolatria política. Pensar antes de compartilhar. As redes
sociais tornaram esse problema ainda maior.
Recebemos
diariamente vídeos, frases, notícias, imagens e informações que confirmam
aquilo que já pensamos. Muitas vezes compartilhamos algo simplesmente porque
concorda com nossa posição, sem verificar sua origem ou veracidade. É o chamado
viés de confirmação: tendemos a procurar e valorizar informações que confirmam
nossas crenças e rejeitar aquelas que as contradizem.
Um exemplo
simples: se alguém acredita que determinado político é incapaz, provavelmente
compartilhará rapidamente uma notícia negativa sobre ele. Se aparecer uma
informação positiva, poderá considerá-la propaganda ou mentira.
O contrário
também acontece. Por isso, antes de compartilhar uma informação política,
poderíamos fazer algumas perguntas:
·
Quem publicou?
·
Qual é a fonte?
·
A informação foi confirmada?
·
Existe contexto que estou desconhecendo?
·
Estou compartilhando porque é verdadeiro ou
porque confirma aquilo em que já acredito?
Essa atitude
também é exercício de responsabilidade moral.
O fato de o
Centro Espírita não ser espaço para propaganda partidária não significa que o
espírita deva abandonar sua responsabilidade como cidadão. Muito pelo
contrário.
Como cidadão,
o espírita possui liberdade para participar da sociedade, discutir política,
votar, candidatar-se, atuar em movimentos sociais e defender aquilo que
considera justo, desde que o faça de acordo com sua consciência e
responsabilidade. Mas essa participação é pessoal, não deve ser apresentada
como posição oficial da Doutrina Espírita.
Uma pessoa
pode ser espírita e escolher determinado candidato. Outra pessoa, igualmente
espírita, pode escolher outro. Ambas continuam espíritas. O que importa é que
suas escolhas sejam acompanhadas de consciência, responsabilidade e respeito ao
próximo.
A verdadeira
transformação social. Aqui encontramos uma das contribuições mais importantes
do pensamento espírita.
A
transformação da sociedade não depende apenas da mudança das leis ou da troca
dos governantes. Depende também da transformação dos indivíduos. De que adianta
combater a corrupção na política se somos tolerantes com pequenas
desonestidades em nossa própria vida?
Criticamos o político que mente, mas mentimos
para obter vantagem.
Criticamos
aquele que se apropria do dinheiro público, mas procuramos uma maneira de
burlar uma obrigação quando isso nos beneficia.
Defendemos a
ética quando ela é conveniente para nós, mas relativizamos nossos próprios
erros.
É nesse ponto
que a proposta espírita nos coloca diante de um espelho.
Antes de
perguntar apenas “quem vai governar o país?”, talvez devêssemos perguntar: “que
tipo de sociedade estamos ajudando a construir com nossas próprias atitudes?”
Política
também é responsabilidade coletiva. A política, portanto, não deve ser
demonizada.
Ela é
necessária porque vivemos em sociedade. Precisamos de leis, instituições,
governos, serviços públicos, educação, saúde, segurança, justiça e mecanismos
de organização coletiva. O problema começa quando transformamos a política em
uma espécie de religião, na qual deixamos de pensar e passamos apenas a
acreditar.
Precisamos
tomar cuidado com o fanatismo político porque ele pode produzir exatamente
aquilo que o Espiritismo procura combater: o orgulho, a intolerância, o
preconceito e a incapacidade de ouvir.
Podemos ter
convicções firmes sem transformar nossas convicções em verdades absolutas.
Podemos
defender nossas ideias sem desumanizar quem pensa diferente.
Podemos votar
com consciência sem transformar o voto em profissão de fé.
E talvez aqui
caiba uma frase bem-humorada que ouvi de um primo que trabalha com pesquisa nos
Estados Unidos: “Brasileiro vota com o fígado e não com a razão.”
A frase é
divertida, mas contém uma provocação séria.
Quantas vezes
nossas escolhas políticas são determinadas pela indignação, pelo medo, pela
raiva, pela paixão ou pela rejeição a alguém?
O desafio
espírita é justamente outro: aprender a pensar antes de reagir.
O Espiritismo
nos convida ao estudo, à reflexão e ao uso da razão. Kardec não propôs uma fé
cega. Ao contrário, estabeleceu como princípio a necessidade de examinar,
questionar e compreender.
Por isso,
talvez a pergunta mais importante não seja:
“De que lado você está?”
Mas:
“Você consegue continuar pensando
quando alguém que você admira está errado?”
E mais:
“Consegue reconhecer uma
qualidade em alguém de quem discorda?”
Essa talvez
seja uma das maiores demonstrações de maturidade intelectual e moral.
O verdadeiro
espírita não precisa abandonar suas convicções políticas. Precisa, porém,
impedir que elas dominem sua capacidade de raciocinar, de dialogar e de amar.
A política
pode dividir ou pode contribuir para a construção coletiva. O voto pode ser
apenas uma manifestação de paixão ou pode ser um exercício de responsabilidade.
E o debate político pode transformar-se em uma guerra de opiniões ou em uma
oportunidade de aprendizado.
No fundo, a
questão continua sendo essencialmente espírita: não basta transformar as
estruturas externas se não estivermos dispostos a transformar também aquilo que
carregamos dentro de nós.
A sociedade
será, em grande medida, o reflexo dos indivíduos que a compõem.
E talvez seja
essa a maior contribuição que o Espiritismo possa oferecer à política: não
indicar em quem devemos votar, mas ajudar-nos a compreender que toda escolha
humana deve ser acompanhada de consciência, responsabilidade, ética e respeito
pelo próximo.
Sandra Fiore
Bibliografia para aprofundamento
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Especialmente questões
614 a 648 (leis morais), 776 a 806 (vida social, igualdade, liberdade e
progresso) e 909 a 919 (paixões e aperfeiçoamento moral).
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XI —
“Amar o próximo como a si mesmo”; cap. XVII — “Sede perfeitos”.
KARDEC, Allan. A Gênese. Cap. XVIII — “São chegados os
tempos”, especialmente as reflexões sobre progresso e transformação da
humanidade.
KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Textos sobre organização
social, liberdade, igualdade, fraternidade e questões relacionadas à
constituição do Espiritismo.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Diversos artigos publicados
por Kardec abordam questões sociais, liberdade, progresso e responsabilidade
humana.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Para a compreensão da
finalidade das reuniões espíritas e dos cuidados necessários à preservação da
seriedade e da
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