sábado, 1 de agosto de 2026

 

Espiritismo e política

 

 

Estamos vivendo um período em que as paixões políticas estão à flor da pele. A polarização alcançou níveis preocupantes e, muitas vezes, transforma adversários políticos em inimigos. Pessoas deixam de ouvir, de dialogar e até de questionar as próprias convicções. Ideias tornam-se cristalizadas, e a emoção passa a ocupar o lugar da reflexão.

É justamente nesse cenário que surge uma pergunta que não podemos evitar: o Espiritismo pode e deve envolver-se com política?

Para responder, precisamos recorrer às obras da Codificação Espírita e, principalmente, compreender uma distinção fundamental: política não é sinônimo de partidarismo.

A política, em seu sentido mais amplo, faz parte da vida humana. Diz respeito à organização da sociedade, às leis, à justiça, à liberdade, à igualdade, aos direitos e deveres, à administração dos recursos públicos e às decisões que afetam a coletividade. Portanto, não faria sentido imaginar o ser humano espírita completamente alheio às questões sociais.

Outra coisa, porém, é transformar o Centro Espírita ou o movimento espírita em espaço de disputa partidária, propaganda eleitoral ou defesa de candidatos.

O que encontramos em Kardec? Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec trata de questões que possuem profundas consequências sociais. As perguntas sobre igualdade, liberdade, justiça, propriedade, leis, governo, sociedade e progresso mostram que o Espiritismo não ignora a vida coletiva.

Na questão 793, por exemplo, Kardec pergunta: “Por que sinais se pode reconhecer uma civilização completa?”

A resposta relaciona o verdadeiro progresso à superação do egoísmo, à justiça e ao desenvolvimento moral. Isso nos leva a uma reflexão importante: uma sociedade pode ser tecnologicamente avançada e, ao mesmo tempo, moralmente atrasada?

Basta observar a história. A humanidade conseguiu chegar à Lua, desenvolver inteligência artificial, realizar transplantes de órgãos e produzir tecnologias extraordinárias. Entretanto, ainda convivemos com guerras, corrupção, desigualdade, violência, intolerância e discursos de ódio.

Portanto, progresso material não significa necessariamente progresso moral.

O Espiritismo é apolítico? Não. O Espiritismo não é apolítico no sentido de ser indiferente aos problemas da sociedade. Ele possui uma concepção de ser humano e de sociedade e apresenta princípios relacionados à justiça, liberdade, responsabilidade, fraternidade e progresso. O que deve ser evitado é a partidarização da Doutrina Espírita.

Um Centro Espírita deve ser um espaço onde pessoas de diferentes posições políticas possam estudar, refletir, conviver e exercitar a fraternidade. Se uma pessoa é de esquerda, outra de direita, outra de centro ou simplesmente não se identifica com nenhuma dessas posições, todas devem encontrar ali o mesmo respeito.

Imagine, por exemplo, uma reunião mediúnica ou um estudo doutrinário em que alguém começa a defender determinado candidato e outro participante passa a atacá-lo. Rapidamente, o ambiente que deveria favorecer a reflexão espiritual transforma-se em uma disputa política.

Nesse momento, deixamos de discutir ideias para defender identidades. E esse é um dos grandes perigos da polarização. Quando o político se transforma em paixão. O problema não está apenas na política, mas na maneira como nos relacionamos com ela.

Podemos discordar de alguém sem desrespeitá-lo. Podemos considerar determinada proposta equivocada sem transformar quem a defende em uma pessoa má. Podemos votar em candidatos diferentes e continuar amigos, familiares e irmãos na humanidade.

Entretanto, quando passamos a acreditar que somente o nosso lado representa o bem, entramos em um terreno perigoso.      

É comum encontrarmos nas redes sociais pessoas tratando determinado político como se fosse um salvador da pátria, enquanto o adversário é apresentado como a própria encarnação do mal.

Isso deveria provocar em nós uma reflexão espírita. Por que transferimos para seres humanos imperfeitos expectativas que deveriam estar relacionadas ao nosso próprio processo de transformação? Nenhum político é messias. Nenhum partido possui o monopólio da verdade. Nenhum grupo humano é constituído exclusivamente por pessoas boas ou más.

O espírita, justamente por compreender a condição evolutiva do ser humano, deveria ter cautela diante da idolatria política. Pensar antes de compartilhar. As redes sociais tornaram esse problema ainda maior. 

Recebemos diariamente vídeos, frases, notícias, imagens e informações que confirmam aquilo que já pensamos. Muitas vezes compartilhamos algo simplesmente porque concorda com nossa posição, sem verificar sua origem ou veracidade. É o chamado viés de confirmação: tendemos a procurar e valorizar informações que confirmam nossas crenças e rejeitar aquelas que as contradizem.

Um exemplo simples: se alguém acredita que determinado político é incapaz, provavelmente compartilhará rapidamente uma notícia negativa sobre ele. Se aparecer uma informação positiva, poderá considerá-la propaganda ou mentira.      

O contrário também acontece. Por isso, antes de compartilhar uma informação política, poderíamos fazer algumas perguntas:

·         Quem publicou?

·         Qual é a fonte?

·         A informação foi confirmada?

·         Existe contexto que estou desconhecendo?

·         Estou compartilhando porque é verdadeiro ou porque confirma aquilo em que já acredito?

Essa atitude também é exercício de responsabilidade moral.

O fato de o Centro Espírita não ser espaço para propaganda partidária não significa que o espírita deva abandonar sua responsabilidade como cidadão. Muito pelo contrário.

Como cidadão, o espírita possui liberdade para participar da sociedade, discutir política, votar, candidatar-se, atuar em movimentos sociais e defender aquilo que considera justo, desde que o faça de acordo com sua consciência e responsabilidade. Mas essa participação é pessoal, não deve ser apresentada como posição oficial da Doutrina Espírita.

Uma pessoa pode ser espírita e escolher determinado candidato. Outra pessoa, igualmente espírita, pode escolher outro. Ambas continuam espíritas. O que importa é que suas escolhas sejam acompanhadas de consciência, responsabilidade e respeito ao próximo.

A verdadeira transformação social. Aqui encontramos uma das contribuições mais importantes do pensamento espírita.

A transformação da sociedade não depende apenas da mudança das leis ou da troca dos governantes. Depende também da transformação dos indivíduos. De que adianta combater a corrupção na política se somos tolerantes com pequenas desonestidades em nossa própria vida?

 Criticamos o político que mente, mas mentimos para obter vantagem.

Criticamos aquele que se apropria do dinheiro público, mas procuramos uma maneira de burlar uma obrigação quando isso nos beneficia.

Defendemos a ética quando ela é conveniente para nós, mas relativizamos nossos próprios erros.

É nesse ponto que a proposta espírita nos coloca diante de um espelho.

Antes de perguntar apenas “quem vai governar o país?”, talvez devêssemos perguntar: “que tipo de sociedade estamos ajudando a construir com nossas próprias atitudes?”

Política também é responsabilidade coletiva. A política, portanto, não deve ser demonizada.

Ela é necessária porque vivemos em sociedade. Precisamos de leis, instituições, governos, serviços públicos, educação, saúde, segurança, justiça e mecanismos de organização coletiva. O problema começa quando transformamos a política em uma espécie de religião, na qual deixamos de pensar e passamos apenas a acreditar.

Precisamos tomar cuidado com o fanatismo político porque ele pode produzir exatamente aquilo que o Espiritismo procura combater: o orgulho, a intolerância, o preconceito e a incapacidade de ouvir.

Podemos ter convicções firmes sem transformar nossas convicções em verdades absolutas.

Podemos defender nossas ideias sem desumanizar quem pensa diferente.

Podemos votar com consciência sem transformar o voto em profissão de fé.

E talvez aqui caiba uma frase bem-humorada que ouvi de um primo que trabalha com pesquisa nos Estados Unidos: “Brasileiro vota com o fígado e não com a razão.”

A frase é divertida, mas contém uma provocação séria.

Quantas vezes nossas escolhas políticas são determinadas pela indignação, pelo medo, pela raiva, pela paixão ou pela rejeição a alguém?

O desafio espírita é justamente outro: aprender a pensar antes de reagir.

O Espiritismo nos convida ao estudo, à reflexão e ao uso da razão. Kardec não propôs uma fé cega. Ao contrário, estabeleceu como princípio a necessidade de examinar, questionar e compreender.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:

“De que lado você está?”

Mas:

“Você consegue continuar pensando quando alguém que você admira está errado?”

E mais:

“Consegue reconhecer uma qualidade em alguém de quem discorda?”

Essa talvez seja uma das maiores demonstrações de maturidade intelectual e moral.

O verdadeiro espírita não precisa abandonar suas convicções políticas. Precisa, porém, impedir que elas dominem sua capacidade de raciocinar, de dialogar e de amar.

A política pode dividir ou pode contribuir para a construção coletiva. O voto pode ser apenas uma manifestação de paixão ou pode ser um exercício de responsabilidade. E o debate político pode transformar-se em uma guerra de opiniões ou em uma oportunidade de aprendizado.

No fundo, a questão continua sendo essencialmente espírita: não basta transformar as estruturas externas se não estivermos dispostos a transformar também aquilo que carregamos dentro de nós.

A sociedade será, em grande medida, o reflexo dos indivíduos que a compõem.

E talvez seja essa a maior contribuição que o Espiritismo possa oferecer à política: não indicar em quem devemos votar, mas ajudar-nos a compreender que toda escolha humana deve ser acompanhada de consciência, responsabilidade, ética e respeito pelo próximo.

 

Sandra Fiore

 

Bibliografia para aprofundamento

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Especialmente questões 614 a 648 (leis morais), 776 a 806 (vida social, igualdade, liberdade e progresso) e 909 a 919 (paixões e aperfeiçoamento moral).

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XI — “Amar o próximo como a si mesmo”; cap. XVII — “Sede perfeitos”.

KARDEC, Allan. A Gênese. Cap. XVIII — “São chegados os tempos”, especialmente as reflexões sobre progresso e transformação da humanidade.

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Textos sobre organização social, liberdade, igualdade, fraternidade e questões relacionadas à constituição do Espiritismo.

KARDEC, Allan. Revista Espírita. Diversos artigos publicados por Kardec abordam questões sociais, liberdade, progresso e responsabilidade humana.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Para a compreensão da finalidade das reuniões espíritas e dos cuidados necessários à preservação da seriedade e da

               

 

               

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