Onde está o uso da razão, do bom senso e do
espírito crítico que Kardec tanto nos ensinou?
Tenho
acompanhado, com certa tristeza, algumas afirmações feitas por pessoas do
movimento espírita que, a meu ver, se distanciam da moral do Cristo quando
analisadas à luz da Doutrina Espírita. Kardec retirou o véu do misticismo, do
dogmatismo e do sobrenatural, apresentando uma doutrina racional, lógica e
acessível a todos. Por isso, é natural que nos perguntemos: estamos realmente
estudando as obras da Codificação ou apenas repetindo ideias que se
consolidaram ao longo do tempo?
Recentemente
ouvi alguém afirmar que o Brasil seria uma nação privilegiada por Deus, onde o
Evangelho de Jesus teria sido transplantado da França para nosso país e que,
enquanto outras nações seriam mais evoluídas materialmente, o Brasil seria
espiritualmente superior.
Confesso que
me pergunto: em que fundamento doutrinário se apoia tal afirmação?
Se há um
princípio claramente ensinado pela Doutrina Espírita é que Deus não estabelece
privilégios. Suas leis são universais, justas e iguais para todos. Os Espíritos
reencarnam onde sua evolução e suas necessidades educativas o exigem,
independentemente da nacionalidade, da cultura ou do continente.
Muitos
interpretam o livro Coração do Mundo, Pátria do Evangelho como se ele afirmasse
uma superioridade espiritual do Brasil. Entretanto, essa parece ser uma leitura
equivocada. A obra pode ser compreendida como uma referência à missão histórica
de um país que acolheu milhões de Espíritos provenientes das mais diversas
regiões do mundo, oferecendo-lhes contato mais amplo com os valores do
Evangelho, por ser uma das maiores nações cristãs do planeta. Missão, porém,
jamais significa privilégio.
Basta
observarmos nossa realidade. Se fôssemos um povo espiritualmente mais evoluído,
não conviveríamos com índices tão elevados de violência, corrupção,
desigualdade, intolerância e desrespeito à vida. O progresso espiritual não se
mede pela religiosidade declarada, mas pela vivência do amor, da justiça e da
fraternidade.
Outra reflexão
que considero necessária diz respeito à mediunidade. Minha admiração por Chico
Xavier é imensa. Talvez tenha sido a maior antena mediúnica que o Brasil
conheceu. Contudo, o que mais me impressiona nele não é apenas sua
extraordinária faculdade mediúnica, mas sua grandeza moral. Chico viveu o
Evangelho de Jesus como poucos. Compreendeu o amor em sua essência e procurou
exemplificá-lo em cada gesto de sua existência.
Mas isso nos
leva a outra pergunta importante: será que todo Espírito comunicante, por mais
elevado que seja, é detentor da verdade absoluta? Evidentemente que não. A
própria Codificação ensina que os Espíritos possuem diferentes graus de
conhecimento e de evolução. Nenhum deles, exceto os Espíritos puros, alcançou a
perfeição. Os bons Espíritos sabem muito, mas não sabem tudo. Podem interpretar
determinados assuntos segundo sua própria compreensão e, em alguns casos, até
transmitir opiniões pessoais.
O próprio
Kardec jamais aceitou uma comunicação apenas pela autoridade do médium ou do
Espírito comunicante. Ele instituiu o Controle Universal do Ensino dos
Espíritos justamente para evitar personalismos, mistificações e a aceitação
cega de qualquer revelação. A recomendação permanece atual: toda informação
deve ser examinada à luz da razão, da lógica e da concordância com os
princípios fundamentais da Doutrina.
Estas palavras
não constituem uma crítica a Chico Xavier, por quem continuo nutrindo profunda
admiração e respeito. Muito menos desmerecem a importância de sua obra. São
apenas um convite à reflexão. O Espiritismo não nos pede fé cega; convida-nos
ao estudo, ao discernimento e ao exame criterioso das ideias.
Talvez seja
este o maior legado de Allan Kardec: ensinar-nos que a verdade não teme
perguntas e que a fidelidade ao Cristo exige, acima de tudo, humildade para
estudar, coragem para refletir e bom senso para não transformar interpretações
humanas em verdades absolutas.
Sandra Fiore
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