sábado, 25 de julho de 2026

 

            Onde está o uso da razão, do bom senso e do espírito crítico que Kardec tanto nos ensinou?

 

Tenho acompanhado, com certa tristeza, algumas afirmações feitas por pessoas do movimento espírita que, a meu ver, se distanciam da moral do Cristo quando analisadas à luz da Doutrina Espírita. Kardec retirou o véu do misticismo, do dogmatismo e do sobrenatural, apresentando uma doutrina racional, lógica e acessível a todos. Por isso, é natural que nos perguntemos: estamos realmente estudando as obras da Codificação ou apenas repetindo ideias que se consolidaram ao longo do tempo?

Recentemente ouvi alguém afirmar que o Brasil seria uma nação privilegiada por Deus, onde o Evangelho de Jesus teria sido transplantado da França para nosso país e que, enquanto outras nações seriam mais evoluídas materialmente, o Brasil seria espiritualmente superior.

Confesso que me pergunto: em que fundamento doutrinário se apoia tal afirmação?

Se há um princípio claramente ensinado pela Doutrina Espírita é que Deus não estabelece privilégios. Suas leis são universais, justas e iguais para todos. Os Espíritos reencarnam onde sua evolução e suas necessidades educativas o exigem, independentemente da nacionalidade, da cultura ou do continente.

Muitos interpretam o livro Coração do Mundo, Pátria do Evangelho como se ele afirmasse uma superioridade espiritual do Brasil. Entretanto, essa parece ser uma leitura equivocada. A obra pode ser compreendida como uma referência à missão histórica de um país que acolheu milhões de Espíritos provenientes das mais diversas regiões do mundo, oferecendo-lhes contato mais amplo com os valores do Evangelho, por ser uma das maiores nações cristãs do planeta. Missão, porém, jamais significa privilégio.

Basta observarmos nossa realidade. Se fôssemos um povo espiritualmente mais evoluído, não conviveríamos com índices tão elevados de violência, corrupção, desigualdade, intolerância e desrespeito à vida. O progresso espiritual não se mede pela religiosidade declarada, mas pela vivência do amor, da justiça e da fraternidade.

Outra reflexão que considero necessária diz respeito à mediunidade. Minha admiração por Chico Xavier é imensa. Talvez tenha sido a maior antena mediúnica que o Brasil conheceu. Contudo, o que mais me impressiona nele não é apenas sua extraordinária faculdade mediúnica, mas sua grandeza moral. Chico viveu o Evangelho de Jesus como poucos. Compreendeu o amor em sua essência e procurou exemplificá-lo em cada gesto de sua existência.

Mas isso nos leva a outra pergunta importante: será que todo Espírito comunicante, por mais elevado que seja, é detentor da verdade absoluta? Evidentemente que não. A própria Codificação ensina que os Espíritos possuem diferentes graus de conhecimento e de evolução. Nenhum deles, exceto os Espíritos puros, alcançou a perfeição. Os bons Espíritos sabem muito, mas não sabem tudo. Podem interpretar determinados assuntos segundo sua própria compreensão e, em alguns casos, até transmitir opiniões pessoais.

O próprio Kardec jamais aceitou uma comunicação apenas pela autoridade do médium ou do Espírito comunicante. Ele instituiu o Controle Universal do Ensino dos Espíritos justamente para evitar personalismos, mistificações e a aceitação cega de qualquer revelação. A recomendação permanece atual: toda informação deve ser examinada à luz da razão, da lógica e da concordância com os princípios fundamentais da Doutrina.

Estas palavras não constituem uma crítica a Chico Xavier, por quem continuo nutrindo profunda admiração e respeito. Muito menos desmerecem a importância de sua obra. São apenas um convite à reflexão. O Espiritismo não nos pede fé cega; convida-nos ao estudo, ao discernimento e ao exame criterioso das ideias.

Talvez seja este o maior legado de Allan Kardec: ensinar-nos que a verdade não teme perguntas e que a fidelidade ao Cristo exige, acima de tudo, humildade para estudar, coragem para refletir e bom senso para não transformar interpretações humanas em verdades absolutas.

Sandra Fiore

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