sexta-feira, 3 de julho de 2026

 

                  A Doutrina Não Tem Preço     

 

                Sei que jamais haverá consenso de opiniões — e ainda bem que seja assim. Somos individualidades únicas, trazendo conosco experiências, valores, conhecimentos e formas próprias de compreender e assimilar os mais diversos temas. A unanimidade, além de improvável, talvez nem seja desejável, pois o pensamento crítico nasce justamente da diversidade de perspectivas. A questão que proponho para reflexão talvez seja uma daquelas sobre as quais dificilmente haverá concordância plena.

Jamais ofenderia alguém por pensar diferente de mim, inclusive quando o assunto é a própria Doutrina Espírita. Discordo de muitas interpretações feitas da obra de Allan Kardec, especialmente daquelas que enfatizam apenas o aspecto religioso assumido pelo Espiritismo no Brasil. Na minha humilde compreensão, Kardec sempre apresentou o Espiritismo em seu tríplice aspecto: ciência que investiga os fenômenos espirituais, filosofia que questiona e busca compreender a existência, e religião apenas no sentido moral, isto é, como um sentimento que religa o ser humano ao Divino por meio da transformação íntima.

Não compreendo religião, nesse contexto, como um conjunto de rituais, dogmas, símbolos, hierarquias ou formalismos exteriores. Por defender essa visão, já deixei de ser convidada para algumas palestras, mas isso nunca me impediu de expressar aquilo que, sinceramente, acredito estar mais próximo do pensamento kardequiano.

O que realmente gostaria que fosse diferente diz respeito a algumas pessoas que conquistaram notoriedade pelo excelente trabalho de divulgação da Doutrina Espírita, mas que, em determinados momentos, parecem esquecer justamente o ensinamento que deveria ser sua maior referência: a humildade.

Soube, por exemplo, de um evento em que o palestrante teria solicitado um valor de alguns milhares de reais para participar. Também observo a oferta de cursos espíritas com preços elevados nas plataformas digitais. Evidentemente, organizar eventos gera despesas e produzir conteúdo de qualidade exige tempo e dedicação. Entretanto, quando a divulgação da doutrina passa a assumir características de atividade altamente lucrativa, acredito que seja oportuno refletirmos se isso está em plena sintonia com os princípios de simplicidade e desprendimento ensinados por Jesus e vivenciados pelos grandes exemplos do movimento espírita.

Sempre me recordo de Chico Xavier. Para mim, além de ter sido talvez a maior antena mediúnica que o Brasil conheceu, foi, acima de tudo, um ser humano extraordinário. Minha admiração por Chico não decorre apenas de sua mediunidade, mas principalmente da grandeza de seu coração.

Seu pensamento estava constantemente voltado ao próximo. Perguntava-se de que maneira poderia aliviar a dor de alguém, oferecer consolo ou diminuir o sofrimento de um irmão. Publicou centenas de livros, mas jamais utilizou os direitos autorais em benefício próprio. Toda a renda foi destinada às obras assistenciais. Nasceu pobre e desencarnou com a mesma simplicidade. Seu maior patrimônio foi o amor ao semelhante.

Conta-se que ele ajudava a manter o centro espírita que frequentava. Muitas pessoas humildes chegavam de bairros distantes ou da zona rural em busca de orientação e conforto. Havia sempre um pequeno lanche para recebê-las, mas Chico sentia que podia fazer mais.

Passou, então, a pedir a Deus a oportunidade de conseguir um emprego melhor para aumentar sua renda e, assim, oferecer uma refeição mais digna aos necessitados. Frequentemente perguntava ao benfeitor Emmanuel se conseguiria essa oportunidade. Emmanuel respondia apenas: "Continue trabalhando; quem sabe?"

Depois de muito tempo, Chico brincou dizendo que talvez fosse necessário pedir a Deus um novo mentor espiritual. Era, evidentemente, uma brincadeira carinhosa. Algum tempo depois, conseguiu um emprego que lhe proporcionou um salário muito maior. Sua alegria não estava no aumento dos próprios recursos, mas na possibilidade de servir melhor, oferecendo, além de um simples lanche, uma refeição mais completa para aqueles que chegavam com fome.

Chico Xavier permanece, sem dúvida, como um dos maiores exemplos de desprendimento, humildade e vivência do Evangelho. Nele, a mensagem de Jesus deixou de ser apenas discurso para transformar-se em testemunho.

Por isso, causa tristeza perceber quando a Doutrina Espírita é utilizada como instrumento de promoção pessoal ou quando a divulgação do Consolador Prometido parece aproximar-se da lógica do mercado. É natural que eventos tenham custos, que livros sejam publicados e que existam despesas administrativas. Tudo isso faz parte da realidade material. Entretanto, talvez devêssemos buscar alternativas que preservassem o caráter essencialmente fraterno da divulgação doutrinária, seja por meio de patrocinadores, do apoio das instituições ou de valores verdadeiramente acessíveis à maioria das pessoas.

Vale lembrar o próprio exemplo de Allan Kardec. Quando decidiu lançar, em janeiro de 1858, a Revista Espírita, assumiu pessoalmente todos os custos iniciais da publicação. Diante da enorme quantidade de relatos sobre fenômenos mediúnicos que recebia e da necessidade de criar um espaço para estudo, análise e esclarecimento, não encontrou colaboradores dispostos a financiar o projeto. Mesmo sendo educador e editor, investiu recursos próprios para garantir a publicação mensal da revista, que se transformaria em um verdadeiro laboratório de pesquisas e em um dos pilares da consolidação do Espiritismo.

Talvez esse seja um exemplo digno de permanente reflexão. A divulgação da Doutrina Espírita constitui, antes de tudo, uma tarefa de serviço ao próximo. Mais importante do que divulgar por meio das palavras, dos livros ou das palestras é testemunhar seus princípios na própria vida. Afinal, a maior propaganda do Espiritismo nunca será o brilho da oratória, mas a luz do exemplo. Como ensinou Kardec, "o verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações". É esse testemunho silencioso que confere autoridade às palavras e fidelidade ao Evangelho de Jesus.

Sandra Fiore

 

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