A
Doutrina Não Tem Preço
Sei
que jamais haverá consenso de opiniões — e ainda bem que seja assim. Somos
individualidades únicas, trazendo conosco experiências, valores, conhecimentos
e formas próprias de compreender e assimilar os mais diversos temas. A
unanimidade, além de improvável, talvez nem seja desejável, pois o pensamento
crítico nasce justamente da diversidade de perspectivas. A questão que proponho
para reflexão talvez seja uma daquelas sobre as quais dificilmente haverá
concordância plena.
Jamais
ofenderia alguém por pensar diferente de mim, inclusive quando o assunto é a
própria Doutrina Espírita. Discordo de muitas interpretações feitas da obra de
Allan Kardec, especialmente daquelas que enfatizam apenas o aspecto religioso
assumido pelo Espiritismo no Brasil. Na minha humilde compreensão, Kardec
sempre apresentou o Espiritismo em seu tríplice aspecto: ciência que investiga
os fenômenos espirituais, filosofia que questiona e busca compreender a
existência, e religião apenas no sentido moral, isto é, como um sentimento que
religa o ser humano ao Divino por meio da transformação íntima.
Não compreendo
religião, nesse contexto, como um conjunto de rituais, dogmas, símbolos,
hierarquias ou formalismos exteriores. Por defender essa visão, já deixei de
ser convidada para algumas palestras, mas isso nunca me impediu de expressar
aquilo que, sinceramente, acredito estar mais próximo do pensamento
kardequiano.
O que
realmente gostaria que fosse diferente diz respeito a algumas pessoas que
conquistaram notoriedade pelo excelente trabalho de divulgação da Doutrina
Espírita, mas que, em determinados momentos, parecem esquecer justamente o
ensinamento que deveria ser sua maior referência: a humildade.
Soube, por
exemplo, de um evento em que o palestrante teria solicitado um valor de alguns
milhares de reais para participar. Também observo a oferta de cursos espíritas
com preços elevados nas plataformas digitais. Evidentemente, organizar eventos
gera despesas e produzir conteúdo de qualidade exige tempo e dedicação.
Entretanto, quando a divulgação da doutrina passa a assumir características de
atividade altamente lucrativa, acredito que seja oportuno refletirmos se isso
está em plena sintonia com os princípios de simplicidade e desprendimento
ensinados por Jesus e vivenciados pelos grandes exemplos do movimento espírita.
Sempre me
recordo de Chico Xavier. Para mim, além de ter sido talvez a maior antena
mediúnica que o Brasil conheceu, foi, acima de tudo, um ser humano
extraordinário. Minha admiração por Chico não decorre apenas de sua
mediunidade, mas principalmente da grandeza de seu coração.
Seu pensamento
estava constantemente voltado ao próximo. Perguntava-se de que maneira poderia
aliviar a dor de alguém, oferecer consolo ou diminuir o sofrimento de um irmão.
Publicou centenas de livros, mas jamais utilizou os direitos autorais em
benefício próprio. Toda a renda foi destinada às obras assistenciais. Nasceu
pobre e desencarnou com a mesma simplicidade. Seu maior patrimônio foi o amor
ao semelhante.
Conta-se que
ele ajudava a manter o centro espírita que frequentava. Muitas pessoas humildes
chegavam de bairros distantes ou da zona rural em busca de orientação e
conforto. Havia sempre um pequeno lanche para recebê-las, mas Chico sentia que
podia fazer mais.
Passou, então,
a pedir a Deus a oportunidade de conseguir um emprego melhor para aumentar sua
renda e, assim, oferecer uma refeição mais digna aos necessitados.
Frequentemente perguntava ao benfeitor Emmanuel se conseguiria essa
oportunidade. Emmanuel respondia apenas: "Continue trabalhando; quem
sabe?"
Depois de
muito tempo, Chico brincou dizendo que talvez fosse necessário pedir a Deus um
novo mentor espiritual. Era, evidentemente, uma brincadeira carinhosa. Algum
tempo depois, conseguiu um emprego que lhe proporcionou um salário muito maior.
Sua alegria não estava no aumento dos próprios recursos, mas na possibilidade
de servir melhor, oferecendo, além de um simples lanche, uma refeição mais
completa para aqueles que chegavam com fome.
Chico Xavier
permanece, sem dúvida, como um dos maiores exemplos de desprendimento,
humildade e vivência do Evangelho. Nele, a mensagem de Jesus deixou de ser
apenas discurso para transformar-se em testemunho.
Por isso,
causa tristeza perceber quando a Doutrina Espírita é utilizada como instrumento
de promoção pessoal ou quando a divulgação do Consolador Prometido parece
aproximar-se da lógica do mercado. É natural que eventos tenham custos, que
livros sejam publicados e que existam despesas administrativas. Tudo isso faz
parte da realidade material. Entretanto, talvez devêssemos buscar alternativas
que preservassem o caráter essencialmente fraterno da divulgação doutrinária,
seja por meio de patrocinadores, do apoio das instituições ou de valores
verdadeiramente acessíveis à maioria das pessoas.
Vale lembrar o
próprio exemplo de Allan Kardec. Quando decidiu lançar, em janeiro de 1858, a
Revista Espírita, assumiu pessoalmente todos os custos iniciais da publicação.
Diante da enorme quantidade de relatos sobre fenômenos mediúnicos que recebia e
da necessidade de criar um espaço para estudo, análise e esclarecimento, não
encontrou colaboradores dispostos a financiar o projeto. Mesmo sendo educador e
editor, investiu recursos próprios para garantir a publicação mensal da
revista, que se transformaria em um verdadeiro laboratório de pesquisas e em um
dos pilares da consolidação do Espiritismo.
Talvez esse
seja um exemplo digno de permanente reflexão. A divulgação da Doutrina Espírita
constitui, antes de tudo, uma tarefa de serviço ao próximo. Mais importante do
que divulgar por meio das palavras, dos livros ou das palestras é testemunhar
seus princípios na própria vida. Afinal, a maior propaganda do Espiritismo
nunca será o brilho da oratória, mas a luz do exemplo. Como ensinou Kardec,
"o verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos
esforços que faz para domar suas más inclinações". É esse testemunho
silencioso que confere autoridade às palavras e fidelidade ao Evangelho de
Jesus.
Sandra Fiore
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