A invisibilidade da mulher
Uma estátua foi levantada em Nova York em frente ao Tribunal
de Justiça, onde a Medusa aparece carregando a cabeça decapitada de Perseus.
Quem conhece a história mitológica sabe que ela foi amaldiçoada
injustamente, tendo o cabelo de cobra, passando a transformar pessoas em estatuas,
foi banida, morta e decapitada por Perseus.
Esta estatua é o símbolo da justiça a personagem e as
inúmeras Medusas da vida Real que sofrem o mesmo destino por falta de justiça
no mundo, as vezes pelo simples fato de serem mulheres supostamente frágeis, e
quando negras, aumenta-se ainda mais essas injustas. Não se trata de vingança, porém
o papel da arte é trazer reflexões e questionamentos.
Ao longo da história, a mulher tem sofrido muitas
perseguições, preconceitos, descriminações, fazendo com que algumas lutassem
bravamente pelos seus direitos e de todas as outras mulheres, foi exatamente
com esse propósito que surgiu o Dia Internacional da Mulher.
Em 1910 durante uma conferência na Dinamarca foi decidido que
8 de março seria o Dia Internacional das Mulheres, porém somente em 1975 foi
oficializada através de um decreto pela ONU com objetivo de discutir o papel da
mulher na sociedade, tentar diminuir o preconceito, a desvalorização, os baixos
salários, a violência, o feminicídio, alguns acreditam que o propósito desse
dia é homenageá-la, mas a mulher não precisa de homenagem e sim de respeito.
Podemos dizer que as “supostas sexos frágeis” já obtiveram
grandes conquistas sociais, porém o caminho é longo e árduo, os desafios são
enormes para se conseguir outras conquistas como dignidade e poder se igualar em
direitos aos homens no contexto social, não é andar à frente deles, não é
mostrar que são melhores, mas estarem ao lado desses irmãos que hoje se
revestem de um corpo masculino.
Durante séculos a mulher foi vista como um ser à parte, não tendo
direito ao voto, a palavra, seu papel era exclusivamente de ser esposa, dona do
lar, mãe e servir aos interesses masculinos e deveriam lhe devotar respeito,
obediência e até chamá-los de meu senhor.
Essa imagem de fragilidade e submissão sempre esteve ligado à
mulher, principalmente na Antiguidade, Idade Média e hoje um pouco menos, mas
ainda existe, embora de forma velada, tanto que os feminicídios acontecem, por
conta do homem se sentir superior e às vezes proprietário da mulher.
A Grécia antiga influenciou a humanidade no campo da
filosofia, das artes plásticas, da arquitetura, do teatro, enfim, de muitas
ideias e conceitos que deram origem às atuais ciências humanas, exatas e
biológicas, havia no pensamento de muitos, que a mulher não tinha o direito de
ser amada porque consideravam que ela não tinha alma, servia apenas para
procriar, assim como o pensamento do filosofo Aristóteles (384aC) que considerava
a mulher algo pequeno, insignificante como fica demostrado nessa frase de sua
autoria: “A fêmea é apenas um material, um “recipiente”, de modo que a
verdadeira “alma” ou “papel ativo” é reservado ao macho”.
Elas não participavam da vida pública, não podiam sair
sozinhas e quando o faziam, tinham que cobrir a cabeça não podendo conversar
com pessoas que encontrassem pelo caminho.
No século XVIII, "O Século da Filosofia, das Luzes”
Rousseau o filósofo que deu sua contribuição para o surgimento do movimento
Iluminista na Europa, movimento esse que acabou cominando na Revolução Francesa,
tendo por slogan:” Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, porém não deram a
mulher o direito de vivenciar o que esses filósofos defendiam. Uma frase de Jean-Jacques Rousseau que demostra
isso é: “A mulher é um ser destinado ao casamento e a maternidade”
·
Quanto
a Napoleão... “A mulher é nossa propriedade e nós não somos propriedade dela”.
·
Schopenhauer
filosofo Polonês ...“Cabelos longos inteligência curta”.
·
Emmanuel
Kant filosofo nascido na Prússia ...“Pouco dotada intelectualmente, caprichosa
indiscreta e moralmente fraca”.
Algumas se passaram por homens para conquistarem seus sonhos,
como o caso de Shabana Basij-Rasikh, ativista em prol dos direitos das mulheres,
a educadora afegã é a fundadora da empresa Hela inc., cuja missão é empoderar
mulheres através da educação, e da SOLA (School of Leadership, Afghanistan;
Escola de Liderança, Afeganistão) em seu país natal. Shabana tinha seis anos de
idade quando o Talibã proibiu a educação de meninas no Afeganistão na década de
1990. Inconformada, durante cinco anos arriscou sua vida se vestindo como
menino para frequentar uma escola secreta levando livros em sacolas de
feira.
Na atualidade, no Brasil, em questão de política, vemos
poucas mulheres participando da vida democrática no país de acordo com a FGV...
“No Brasil, as mulheres são quase 50% dos filiados a partidos políticos, mas no
momento de montar a lista dos candidatos à deputado federal, elas ficam com
apenas 30% das vagas, percentual mínimo imposto pela legislação eleitoral. E,
no final, apenas 15% dos deputados federais são mulheres”.
http://www.cepesp.io/por-que-ha-poucas-mulheres-na-politica-brasileira-5-perguntas-para-ivan-mardegan/
Quantos aos textos alegóricos evangélicos, quando não se tem
os devidos cuidados com as interpretações, comete-se erros por não buscarem o espírito
da letra e isso vem contribuindo ao longo dos tempos para discriminar ainda
mais a mulher, quando diz que: “A mulher foi criada a partir da costela de Adão”,
sendo, portanto, ligada a ele em submissão e quando foram expulsos do paraíso
por Deus, foi dado a Eva toda a responsabilidade por ter supostamente induzido
Adão ao erro e hoje as mulheres carregam nos ombros o peso da dor da humanidade
pelo pecado original.
Como tem sido árdua essa batalha das mulheres, principalmente
das negras para conquistar seu espaço na sociedade, derrubar tabus, o respeito aos
seus direitos e não somente aos seus deveres. Hoje perguntamos, quantos nomes de mulheres lembramos
que foram importantes para a humanidade, quantas cientistas, filosofas, pintoras,
escritoras, jornalistas, antropólogas, sociólogas conhecidas que deixaram seus
nomes escritos na história?
Aliás, no passado, as mulheres escritoras, jornalistas para
terem seus trabalhos divulgados, usavam pseudônimos masculinos ou se fossem
cientistas, davam aos maridos, irmãos a autoria de seus trabalhos, porque havia
grande resistência em aceitar tudo que vinham das chamadas sexos frágeis.
Na época da escravidão nos EUA, as mulheres negras, escravas,
trabalhadoras nas lavouras de colheita de algodão, debaixo de sol e chuva,
sofrendo as dores das humilhações, das chibatas lambendo os lombos, ferindo a
alma, os calos nas mãos, sem nenhuma compaixão dos seus senhores, porem no
Brasil não foi diferente, período que muito nos envergonha e entristece, enquanto
na Europa nesse mesmo período, as mulheres brancas não podiam exercer
atividades consideradas de peso, nem por isso eram tratadas com mais dignidade.
Isso nos mostra que ser mulher e negra
tinha e continua tendo um peso grande de discriminação e preconceito pela
sociedade, principalmente machista.
E quando se fala em religiões, há inúmeras cujos dirigentes
(homens), calcados em registros do Velho Testamento, presos a letra (vendo alí
"a palavra de Deus"), insistem que a finalidade da mulher é obedecer
ao homem e servir como instrumento de reprodução.
No Alcorão (livro sagrado do islamismo) confere ao homem o
"direito" de bater na mulher, se esta não lhe obedecer.
Para os mulçumanos ortodoxos ainda hoje a mulher não pode
sair às ruas, pois corre o risco de ser presa, assim como mostrar o rosto em
alguns países do oriente médio. Quando li a Trilogia da Princesa Sultana,
escrito pela jornalista Jean P. Sasson, contando com detalhes como é a vida
dessas mulheres mulçumanas relatado por uma princesa que não podia ter seu nome
divulgado, fiquei assustada, muito, muito distantes do que poderíamos dizer ser
algo normal na nossa visão ocidental, embora isso seja cultural, fica difícil aceitar
sem se indignar.
E no espiritismo, teria discriminação? Homens espiritas como
veem as mulheres no movimento? A
doutrina nos ensina que espírito não tem sexo e estagiamos ora em corpos
masculinos, ora em corpos femininos, isso faz parte da nossa aprendizagem e
nosso progresso.
Jesus era feminista, gostava das mulheres e as defendia,
muitas passaram a segui-lo numa época em que viviam à margem da sociedade,
algumas estavam sempre com Ele, a ouvi-lo, a beber do néctar dos seus
ensinamentos como: Maria de Magdala, Joana de Cusa entre outras.
Alguns podem estar se perguntando.... Se espírito não tem
sexo por que Jesus não deu exemplo e veio num corpo feminino? Porque não
conseguiria ter cumprido sua missão, seus ensinamentos não teriam atingido os
objetivos de tocar os corações e como mestre, ensinar o caminho para que todos
possamos encontrar os tijolinhos das virtudes e construirmos o reino de Deus em
nossos corações.
Embora não tenha vindo como mulher, escolheu uma discípula,
Maria Magdala, causando ciumeira entre todos os outros discípulos, ela foi a
primeira a rever Jesus despois da ressurreição do espírito e revelar a Boa Nova
aos apóstolos.
Mesmo com tantos conhecimentos adquiridos hoje, revelado pelos
espíritos ao nosso codificador Kardec através dos médiuns, existe no meio espírita
preconceitos e resistências contra a mulher?
Para contribuir com as reflexões pergunto, quantas escritoras
espiritas conhecemos, quantas vem à nossa mente, e quantos homens? Quantas
oradoras conhecidas e quantos homens? Quando vemos os eventos espiritas como
congressos, notando os cartazes de divulgação, percebemos vários homens, uma no
máximo duas mulheres, ou seja, há mais cravos do que rosas trabalhando como
divulgadores da doutrina no jardim perfumado do movimento espírita. O que está
faltando para mudarmos esse quadro? Será
que as mulheres precisam se engajarem mais, terem coragem de se mostrar? E aos
homens, será que falta se desvencilhar dos atavismos?
Podemos dizer que, toda mulher deve se empoderar, se
valorizar, esteja na religião, na vida social, deve continuar lutando
dignamente, mostrar que são capazes de andar lado a lado do homem, ser filha,
mãe, esposa, amiga, parceira, oradora, advogada, engenheira, motorista,
pedreira, pintora, jornalista, radialista, atriz, carpinteira, cientista, médica,
gari, caminhoneira, farmacêutica, dentista, prefeita, governadora, deputada, senadora,
presidente.... principalmente, mostrar lealdade, honra, moral, ética,
capacidade física e intelectual, além de desenvolver os mais nobres sentimentos,
lembrando, somos todos filhos de Deus e Ele nunca privilegia ninguém, porém nos
dá oportunidade de crescermos e nos tornamos melhores através das várias
experiências reencarnatoria.... Mulheres, avante!!!
SANDRA FIORE
Artista plástica, faz Graduação em
Filosofia.
Espírita há mais de 36 anos, integrante da União Espírita
Paschoal Grossi de Araraquara, coordenadora de grupos de estudos, divulgadora
do espiritismo através de palestras, seminários.
Sandra, amiga querida, o texto não poderia ser melhor. Vc fez um alinhavo pela história mostrando o quanto ser mulher sempre foi , digamos um tanto complicado. Parabéns pelo artigo.
ResponderExcluirQue busquemos maior espaço entre os homens, que tenhamos a tribuna levando nosso conhecimento como igual, lado a lado, como vc colocou.
Bjs