Wallace Leal Rodrigues entrevista Clóvis Tavares na RIE
Entrevistando
CLÓVIS TAVARES.
Autor de
magníficas obras espíritas fala à Revista
Internacional de Espiritismo. RIE-1968
Entrevistando
CLÓVIS TAVARES.
Autor de
magníficas obras espíritas fala à
Revista
Internacional de Espiritismo. RIE-1968
1- Clóvis, você assistiu a passagens importantes do
Espiritismo em nosso país, além do depoimento que prestou sobre o médium
mineiro, Chico Xavier...Entretanto a nossa primeira pergunta é a seguinte:
Onde, quando e como se tornou espírita?
- Já que você se refere ao meu singelo depoimento sobre o
nosso querido Chico, permita-me lembrar-lhe, caro Wallace, que acredito haver
no “Trinta anos com Chico Xavier” revelado, de escantilhão, o onde o quando e o
como de minha adesão à nossa Doutrina Libertadora. Foi aqui em Campos, em 1935
e assim: Meu coração estava esmagado pelo mistério da morte – consinta-me usar
as expressões tomadas ao meu livro sobre o venerável Xavier... Acabara de
perder, assim o julgava na cegueira do meu materialismo, aquela que me fora noiva
carinhosa e continua sendo o anjo tutelar de minha vida, Nina Arueira. Como uma
folha na tempestade, deixara de lado livros e apostilas e voltava aflito, às
inquirições de minha fé perdida, que ficara longe, esquecida entre as lembranças
mais amadas de minha aldeia natal....Cria e não cria, mas queira crer...(...).
Foi então que a mão de Deus desceu cheia de piedade sobre minha dor.
Companheiro amigo, talvez do Grupo João Batista, me colocou na mão modesto
folheto de difusão do Espiritismo. Quem fora ele? Virgílio Paula? Amaro Lessa?
Bonifácio de Carvalho? Serafim de Almeida? Domingos Guimarães? Inocêncio
Noronha? ...Minha maneira, também mortificada, não mais o identifica hoje. Mas
que Deus o abençoe, perdoando-me a retentiva ingrata.
Não me esqueço, porém, do folheto abençoado, que numa página
transcrevia uns poucos verso do Parnaso de Além Túmulo....
Aqui encerro a transcrição, Wallace, para dizer-lhe que a
esclarecedora publicação transcrevia algumas quadras de Guerra Junqueiro, duas
estrofes de Augusto dos Anjos e algumas outras de Castro Alves...Senti-os
redivivos, vencedores do túmulo e da morte...Aa fortalezas do meu ceticismo ruíam
no mais íntimo de minha consciência.
Mais tarde, inúmeras mensagens de amigos e benfeitores
espirituais, por intermédio de Francisco Cândido Xavier, me trouxeram novos
elementos à convicção, hoje inabalável, da imortalidade da alma.
2. Quantos livros têm publicados? Com qual estreou? Qual lhe
deu maior prazer?
- Bem pequena e muito pobre é a minha bagagem, caro Wallace.
Apenas dez volumes, quase todos de literatura infantil. O primeiro foi
Sementeira Cristã, com carinhoso prefácio de Leopoldo Machado, iniciando a
coleção de três, com o mesmo título, destinados à infância e a juventude
espírita.
Não é nova, você sabe, a imagem que compara o livro a um
filho...Quem escreve, naturalmente ama seus livros, qual pai o u mãe, ama os
rebentos de sua carne. São eles também filhos do coração, do espírito. Para ser
sincero, amo-os a todos, embora lembre como se fosse hoje, o nascimento do
primeiro filhinho, a Sementeira Cristã. Recordo-me das palavras de carinho com
que o saudoso amido, Dr. Gillon Ribeiro, o inolvidável presidente da Casa de
Ismael, o apresentou nas páginas do Reformador. Comovem-me ainda hoje as
expressões de bondade e estímulo com que o mesmo generoso benfeitor apresentou
o terceiro volume da série Sementeira Cristã num extrato de catálogo da FEB na
edição princéps de Nosso Lar, o magnífico livro-revelação de André Luiz...
Não posso fugir a uma referência especial à publicação de
outro livrinho que me encheu o coração de contentamento, tais as doces
recordações de Jesus de que ele está repleto. Trata-se de Histórias que Jesus
contou, edição da LAKE. Às recordações das parábolas de Cristo juntam-se dois
motivos fortíssimos de júbilo espiritual: o prefácio é de Emmanuel, recebido
por Chico Xavier e as ilustrações do querido Jô, nosso admirável Joaquim Alves,
a quem todos amamos...
Mas não posso esquecer a indefinível alegria que se misturou
às silenciosas e humildes orações de um dia inesquecível, 29 de setembro. Foi
nessa data, que recorda a desencarnação da generosa mãezinha de nosso Chico,
alma querida, que aprendemos a amar desde a leitura das Cartas de uma Morta,
foi nessa data, no ano próximo passado 1967, que me chegou às mãos, lindamente
vestido pelos cuidados artísticos de Joaquim Alves e dos irmãos Saraiva, em
caprichosa Edição Calvário, o meu caçula ( e que não ama com ternura especial
um caçulê?)- os Trinta Anos com Chico Xavier...
3. Como e por que se decidiu escrever Trinta Anos com Chico
Xavier?
-Sobretudo, pensando no futuro, meu caro Wallace. No mundo
de contradições em que vivemos, creio que é simples dever, testemunhar a
verdade que vemos que sentimos e que nos felicita. A vida de Chico Xavier, a do
homem e a do médium, sem dicotomia, é uma saga maravilhosa. Quem o conhece há
trinta e dois anos, qual acontece comigo, sente irrefreável necessidade de dar
aos seus contemporâneos, e, por que não dizer? Também aos pósteros, um
testemunho de consciência e de coração. Recordo-me de uma expressão de Fócion
Serpa, autor de A Vida Gloriosa de Oswaldo Cruz, que Gastão Pereira da Silva
recolheu em seu romance do grande sábio brasileiro: “Cada um de nós deve um
livro a Oswaldo Cruz”...Penso em você, Wallace, penso em Jô, em Peralva, no
Arnaldo Rocha...penso que cada um de nós deve um livro Chico Xavier. Foi por
assim pensar e por bem sentir que escrevi, com alma e coração, meu singelo
documento de provas vivas da imortalidade, Trinta Anos com Chico Xavier.
4. Armazenando tantas lembranças formosas, qual acha Você
que foi o maior momento de sua vida como espírita?
- Difícil resposta, caro Wallace ... Realmente, como diz
Você, minha irmã tem armazenado formosas lembranças, além de dádivas
preciosíssimas, na pauta da divina misericórdia. Cada uma dessas recordações
inesquecíveis, cada gesto de compaixão do Alto tem profundo significado par
aminha alma sem méritos...Foram assim, muitos momentos de ventura espiritual
que tenho experimentado. O reencontro com antigas e abençoadas amizades do
passado sempre constitui para mim um ponto alto de indefiníveis emoções...A
paisagem de Pedro Leopoldo, com todo o conteúdo espiritual da missão de nosso
Chico, traduz para o meu coração um momento de Vida Eterna...
- Leonardo da Vinci nos fala da alegria de compreender.
Junto de tantas almas bondosas que tem felicitado minha vida, com a
exemplaridade de sua existência, venho conhecendo, mais e mais, e a alegria de
sentir a beleza inefável da Doutrina Espírita qual força transformadora de
nossos espíritos, impulsionando-nos para o conhecimento elevado e, acima de
tudo, para o Amor de Deus com o serviço ao próximo.
Sempre que consigo experimentar essa alegria do sentir maior
que a de Da Vinci, considero-me nos melhores momentos de minha vida.
5. O que acha de mais significativo no Espiritismo no
Brasil?
Aquela admirável mensagem do Espírito de Verdade, que Allan
Kardec incluiu em O Evangelho Segundo o Espiritismo, recomenda-nos: “Espíritas,
amai-vos, este o primeiro mandamento, instruí-vos, este o segundo.”.
O que mais me encanta, o que mais significativo me parece brilhar
no trabalho missionário da Terceira Revelação na Pátria do Evangelho é
justamente esta ânsia, este desejo de cumprir os dois ensinamentos do Espírito
de Verdade. Desde os centros mais cultos, das maiores e mais veneráveis
instituições espíritas até os mais modestos templos e cenáculos do interior do
Brasil, já se nota, Deus louvado, o santo desejo de fazer da Doutrina Espírita
um movimento de educação espiritual que não dispensa o exercício do amor
cristão e da caridade legítima. Essa aliança do livro espírita e da fraternidade
evangélica em nossas instituições doutrinárias me parece o que há de mais belo
e de mais significativo no Espiritismo em nossa pátria.
6. Excluindo Chico Xavier, qual o vulto espírita que mais o
impressionou? Por quê?
Caro Wallace, permita-me que pluralize a resposta. Além do
nosso grande Chico Xavier, honro-me e alegro-me por Ter conhecido pessoalmente
grandes e belas almas que dignificaram com o seu apostolado de amor à seara do
Espiritismo no Brasil. Reporto-me àquelas que já se promoveram ao Mundo Maior e
às quais sou agradecido pelas lições espirituais que me comunicam: Dr. Guillon
Ribeiro, Manuel Quintão, Prof. Cícero Pereira, Leopoldo Machado, Inácio
Bittencourt, Virgílio Paula, Bonifácio de Carvalho, Dr. Camilo Chaves, Dr.
Carlos Lomba, Dr. Lins de Vasconcelos, Antônio Sampaio Júnior, D. Marília
Barbosa, José Cândido Xavier, Vinícius, Francisco Spinelli, a poetisa Maria
Dolores e muitos outros...Teria que apresentar outra grande lista de
companheiros e amigos encarnados, se quisesse ou pudesse expressar-lhes, desse
modo, meu profundo reconhecimento e a mais viva admiração.
.7 O que Você acha que está errado no Espiritismo no Brasil?
Evidentemente há falhas, maiores ou menores, no esforço de
nossos seareiros de nossa doutrina no Brasil. Sou entretanto, dos que admitem
que, de modo geral, todos se empenham, dentro de suas possibilidades, em
oferecer o melhor em termos de nossa realizações doutrinárias.
8. Como intelectuais quais são as obras espíritas que
levaria com Você, se fosse para uma ilha deserta?
Além das coleções de Kardec e Francisco Cândido Xavier, se
possível completas, não esqueceria Ensinos Espiritualistas, de Stainton Moses;
O Problema do Ser, do Destino e da Dor, de Léon Denis; O Espírito Consolador, de
P. Marchal e Elucidações Evangélicas, de Saião.
9. Quando foi que ouviu falar de Cairbar Schutel? Tem dele alguma
lembrança mais especial?
Quem me deu as primeiras notícias sobre Cairbar Schutel, e
com os louvores ao apóstolo de Matão, também informes de Batuíra e Eurípedes
Barsanulfo, foi meu amigo e saudoso benfeitor Virgílio Paula, um cristão de
corpo inteiro que viveu e exemplificou o Evangelho em Campos. Fiquei, assim,
conhecendo, desde a minha iniciação no Espiritismo, algo sobre esses valorosos missionários
da Terceira Revelação.
Ao iluminado coração de Cairbar Schutel, devo o entendimento
de muitas lições evangélicas, carinhosamente estudadas nos seus primorosos
livros Parábolas e Ensinos de Jesus, Vida e Atos dos Apóstolos e O Espírito do
Cristianismo, além da querida Revista Internacional de Espiritismo.
10 Está elaborando alguma obra nova? Que planos faz para o
futuro?
Sim, caro Wallace. Estou em vias de conclusão de um novo
trabalho, talvez quase um documentário, a respeito do vasto e inegável acervo
de fenômenos espíritas no seio da Igreja Católica e por esta, certamente
testemunhados. Intitula-se Mediunidade dos Santos, onde ofereço aos nossos
irmãos espiritistas e católicos, os fatos mediúnicos, irrefutáveis e
autênticos, que se desenrolaram na existência dos grandes heróis da fé cristã,
em todos os tempos e latitudes. Acredito que os grandes e verdadeiros santos,
não foram senão médiuns fiéis e veneráveis, instrumentos do alto, engajados no
grande esforço de extensão do Reino de Deus em nosso mundo rebelde e
angustiado...
Quanto a planejamento para o futuro, querido Wallace,
digo-lhe que entrego a Deus, meus sonhos silenciosos. Se ele me conceder, vida
e saúde, espero poder continuar cooperando, embora muito pobremente, no serviço
do livro, para usar a feliz expressão de Emmanuel...
Nenhum comentário:
Postar um comentário