Mocidade Espírita de Araraquara – Uma
pagina de saudades com nosso querido Wallace.
Recuando no tempo (década de 40),
recordo-me do Wallace descendo a avenida 15 de novembro, juntamente com Sra.
Ninira, sua irmã e mais algumas pessoas.
A eles
juntávamos eu, minha mãe e mais alguns irmãos que vínhamos da Avenida D. Pedro.
O destino era, irmos ao Centro Espirita situado mais abaixo naquela avenida.
Àquele tempo, os trabalhos mediúnicos eram realizados de portas abertas com
acesso a todos que ali quisessem entrar.
Esse foi o
meu 1º contato com o Wallace. Passado algum tempo, a vida encarregava-se de nos
afastar, raramente o via pela cidade, embora ouvisse sempre referências
elogiosas a seu respeito no campo das realizações culturais e filantrópicas.
Já em
18/07/1948 quando da instalação do I Congresso de Mocidade Espirita do Brasil
no Teatro João Caetano – SP, de Araraquara se fizeram representar Dr. Ayrton de
Toledo e Wallace L. Rodrigues, tamanho o seu engajamento no movimento espirita.
Tornei-me
espirita lá pelos idos de 1949, mais precisamente em 10/09 e fui muito bem
recebida na recém-nascente Mocidade Espirita.
Formara-se
um grupo de jovens que unidos, definiriam as metas norteadas do movimento
espirita em Araraquara nos setores da Evangelização Infantil. Mocidade e
Centros Espiritas, igualmente sendo responsáveis pela Fundação da União
Municipal Espirita (U.M.E.).
Embora de
formação espirita desde a infância, somente lá pelos anos de 1950, pudemos
contar com a presença e participação desse querido companheiro Wallace na
Mocidade à qual imprimiu grande dinamismo. Sua interferência, aliada à ajuda e
entusiasmo de todos, a Mocidade pode contar com a presença ilustres de alguns
cientistas, filósofos, escritores de renomes nacionais e internacionais. Como
exemplo citaríamos entre outros, Pietro Ubaldi autor da monumental obra “ A
grande síntese” além do jovem e promissor Divaldo Pereira Franco e o deputado
Campos Vergal.
Sua
participação na mocidade foi multifacetária, nos campos da cultura, das artes,
do lazer e estudos com pesquisa e investigações.
Em 1951 os
jovens reunidos decidiram sobre a importância da criação de um órgão de
divulgação de suas atividades e dos postulados da Doutrina Espirita. E foi,
portanto lançado um pequeno periódico ao qual deram o nome de Folha
Juventina. No 1º. Numero na capa, logo
abaixo, Wallace escreve:
“Não tenho
queda para reportagens. Para crônicas, sim! Acho apaixonante escrever para as
gerações que virão. Escrever para homens e mulheres do meu tempo,
acontecimentos e iniciativas, experiências a frustações. Sei que um dia, a
coletividade desta “Toca do Sol” será toda espirita. Nesse dia, muitos
desejarão saber como cresceu a árvore Evangelho Kardeciana nesta terra. “A
Folha Juventina” contará”. (Palavras proféticas)
Ficaríamos
aqui escrevendo paginas e paginas sobre a importante participação desse querido
companheiro de ideal, que fez nascer entre Ele e nós, já amigos, uma grande
camaradagem cimentada na amizade verdadeira e respeito.
Aos domingos
costumávamos passar o dia praticamente juntos, desde as reuniões doutrinárias
matinais, seguidas de passeios à tarde e culminando nas sessões de cinema.
Que dias
inesquecíveis aqueles! Creio que para nós e para Ele, foi um tempo bastante
proveitoso e feliz.
O meu
relacionamento pessoal com Wallace estreitou-se sobremaneira, devido aos
constantes conversas, trocas de ideias e impressões, ou talvez por razões que
se perdem na esteira do tempo. Por ter Ele um espirito muito investigativo e
incomodar-me com aquilo que não suscita respostas às minhas duvidas e
curiosidade, assediava o querido amigo Wallace com muitas indagações.
Certa vez, Wallace
disse-me que havia terminado um livro, mas que estava com duvidas quanto ao
nome. Pediu-me se eu
aceitaria opinar sobre o assunto, o que já fora solicitado a algumas pessoas.
Naturalmente aceitei, mas tive que lê-lo. Estava ainda no original, com algumas
correções a serem feitas. Os nomes propostos eram: “O que veio por ultimo” ou
“Esquina de pedra”.
O assunto
versava sobre o nascimento do cristianismo e posteriormente sua adulteração
selada no Concilio de Niceia com a nomenclatura de Catolicismo de caráter mais
politico que religioso.
Como houve
consenso nas opiniões solicitadas, sagrou-se o nome “ Esquina de Pedra”.
Intrigada
com a qualidade e diversidade de informações e situações de certos detalhes
apresentados no livro, quis saber Dele algumas explicações.
-
Como, onde, quem lhe fornecera tão vasto material Wallace? E Ele responde.
- Rosinha,
eu estava e me sentia lá.
Posteriormente
a publicação do livro, Ele incluiu no final do mesmo, uma nota da qual o ultimo
paragrafo passo a transcrever.
“Este livro, escrito sob forte vibração espiritual foi
enriquecido por esses informes (da nota) quando já havia sido terminado.
Acreditamos firmemente que todos os acontecimento e personagens presentes são
reais e que os acontecimentos foram apenas suavizados, uma vez que nos sentimos dentro das cenas ao
escrevê-lo. Varias das personalidades retratadas já foram detectadas por nossa
sensibilidade. Todavia, isto não quer dizer absolutamente que A Esquina de Pedra, seja um
livro psicografado.
Ainda nesta
semana conversando com Carlos Alberto ex-secretário e amigo do Wallace, para
poder escrever esta crônica, não só confirmou a veracidade das minhas
informações, como acrescentou que o nosso amigo em comum, assegurava-lhe que
tinha a faculdade dos desdobramentos constantes, narrando-lhe sobre algumas
vidas que intuíra ter. Em relação ao livro “A ESQUINA DE PEDRA , garantiu-lhe
ter sido um soldado romano e testemunha das grandes perseguições aos cristãos
da época.
Isto me
tranquilizou quanto à autenticidade das minhas afirmativas, já confirmada
também por outros amigos que conviveram conosco na Mocidade Espirita.
Lá pela
década de 70, encontramo-nos e numa conversa usual, Ele falou-me que estava
esperando umas copias que viriam de Londres e que tratavam das experiências de
Sir Willian Crooks, um dos maiores sábios da época sobre materializações.
- E
como você obteve esse material? Perguntei curiosa.
- Talvez
movido por forte interesse pelo assunto, desdobrei-me e fui até Londres
constatando que aquele precioso acervo estava à salvo. Respondeu Wallace
Após a
publicação do livro lê-se no prefacio:
“O
trabalho foi árduo. A nosso favor tínhamos apenas as antigas coleções de órgãos
espíritas dos arquivos schutelianos, e, inesperadamente, a descoberta de que os
bombardeios de Londres não tinham destruído de todo as chapas fotográficas que
Mr. Harrison, editor do "The Spirítualist" e o próprio Sir William
Crookes haviam batido. Obter cópias foi um trabalho de obstinação.”
Eu estava no
Colégio Progresso fazendo um curso complementar e o professor de Pedagogia
pediu-nos um trabalho sobre um pedagogo famoso. Sem duvidas escolhi Pestalozzi,
pois não há apenas um simples elo sentimental casual entre este o pedagogo e
Kardec, ambos discípulos do mesmo Mestre que a todos nos inspira, Jesus.
Sabia que o
Wallace estava participando de um concurso à nível nacional, sobre esse famoso
educador. Solicitei-lhe algumas informações a respeito, e Ele atencioso como
sempre, emprestou-me o original do seu trabalho. Até hoje guardo com carinho os
apontamentos que completaram satisfatoriamente o meu trabalho e fiquei muito
feliz em saber que Ele obteve a consagração com o 1º lugar, merecidamente.
Curiosa como
sou, nesse papo de como, quem, quando, Ele informou-me.
- Eu
me via junto à Pestalozzi às margens do Lago de Genebra, conversando
amigavelmente. E dessa forma foram obtidas certas particularidades e
informações. ( Ele tinha facilidade no processo de desdobramento como
já dissemos anteriormente)
Outro
episodio pitoresco ocorrido que Ele frequentemente nós narrava.
-Sabe
Rosinha, eu me vejo numa bela carruagem onde estão sentados ao meio Napoleão
Bonaparte, ladeado por Madame de Stael (romancista e ensaista francesa que
incorporou como poucas mulheres o espírito do Iluminismo francês) e a mulher
mais linda da França.
Empolgado e
envaidecido Ele diria:
- Estou
entre uma das maiores inteligência e de mais exuberante beleza da França.
Ao que eu
lhe respondia:
- Infelizmente
não posso dizer o mesmo!
Notava que Ele sentia um grande
prazer ao contar-me esse episodio. São conhecidas as diferenças entre Napoleão
e Madame de Stael, daí o sorriso como uma pequena vingança. Isto porque Wallace
sentia fortes indícios de ter sido a famosa escritora.
Passaram-se
alguns anos e lá pela década de 80, soube que Wallace se encontrava doente.
Naquela época eu era Coordenadora da Mocidade Espirita da Obreiros do Bem.
Então preocupada com as condições de sua saúde e igualmente saudosa, achei
oportuno levar o presidente da Mocidade o Sr. Braz a conhecê-lo e sugerindo-lhe
que pedisse a permissão para uma entrevista a respeito de sua biografia.
Telefonei-lhe
sobre minha intenção, pois Ele já estava restrito quanto às visitas. Felizmente
anuiu como sempre fazia quando solicitava-lhe algo. Marcamos dia e hora. Fomos
recebidos com cortesia e quanto ao objetivo que ali nos trouxera além da visita,
argumentou ser melhor aproveitar aquele encontro com um papo mais agradável e
descontraído e que ele mesmo escreveria sua biografia entregando-a assim que tivesse
pronta. E assim aconteceu.
Depois de
algum tempo de conversa agradável, Wallace apontou-me um baú num canto,
desafiando-me a dizer o que se encontrava lá.
-
Olha Wallace, vindo de você, poderá ser até as Tabuas da Lei! Sorri.
- Não
Rosinha, mas é algo de suma importância. Trata-se de um livro de Mlle Clarie
Baumard, cuja tradução e prefacio redigido por Ela demonstrou ser de grande
valor histórico. Essa senhora eficiente secretária e também grande amiga de
Leon Denis e revela que no decorrer dos anos em que exerceu suas funções junto
ao escritor já cego, redigiu um Diário, ao qual não recorreu para a leitura de
sua obra. Deixava para os mais capazes e admiradores, trazerem ao mundo, a
síntese de sua extraordinária obra e impar personalidade.
Há dois
prefácios no livro: um explicativo do Wallace, mas extenso, fornecendo-nos
informações valiosas sobre a vida de homens que preludiaram o advento da 3ª.
Revelação. Coloca o Espiritismo num contexto histórico tornando mais
compreensível o seu surgimento do Luzeiro prometido pelo Mestre Jesus. O outro
prefacio de Sir Arthur Conan Doyle também enaltece a figura desse notável
Apostolo.
Achei o
Wallace inconformado pela autora não querer valer-se de seu Diario. Dizia Ele:
- Em
que mãos estariam agora o precioso documento (Diário)?
Desapontado escreveria ao lado de seu
prefacio – “O que o livro de Clarie Naumard não contou....”
Conhecendo-o bem, estranhei Ele não ter conseguido localizar o
paradeiro de tal preciosidade.
Estaria o
nosso Sherlock Holmes do espiritismo perdendo o faro?
No dia do
lançamento do livro “Leon Denis na
intimidade”, realizado na banca espirita que fica em um das praças centrais
de Araraquara, eu me ofereci para ir busca-lo de carro, pois suas condições
físicas não o permitiam ir à pé. Assim procedi e trazendo-o após o termino com
meu exemplar debaixo do braço, devidamente
autografado com dedicatória.
“Para minha
queridíssima Rosinha, com o beijo e o coração “Wallace
Guardo-o com
muito carinho e saudades.
Finalizando,
arrojo-me o direito de tecer algumas impressões a respeito do meu caro amigo
Wallace, embora sem as suas condições culturais de pensar e se expressar que
tanta admiração causava a todos. Por isso vou me utilizar de outro instrumento,
o coração, que através de palavras simples e singelas, chegue até o seu, esse
órgão da fé e da esperança e com o qual divisamos os verdadeiros amigos.
Dando asas à
imaginação, como numa comparação analógica, sempre via o Wallace assimilando-se
a um pássaro multicor de exuberante e linda plumagem, preso numa gaiola
dourada; por vezes feliz e saltitante diante dos olhares maravilhados de sua
beleza e maravilhoso canto; outras vezes, entristecido, pois apesar da
admiração causada e sabendo-se ser um ornamento raro, sofria com os grilhões da
prisão e por atitudes intempestivas de crianças, jovens e até de alguns adultos
totalmente distanciados do respeito, da sensibilidade e, sobretudo do amor.
A dualidade
de sentimentos nos surpreende a cada passo. Quando merecer disfrutar a
felicidade completa? Nos bem sabemos; quando a conquistarmos e ela exige
esforço, luta, desapego, equilíbrio, enfim, evolução espiritual. Mas ainda
somos seres humanos fragilizados principalmente nas nossas emoções.
Ah! Se
tivéssemos o condão de perscrutar a alma nos seus escaninhos mais profundos.
Quem poderá prever as lagrimas de alguém, mesmo estando em situação
privilegiada?
Maria Dolores,
com sua extrema sensibilidade, através da psicografia de Chico Xavier, nos
brindou com uma verdadeira perola de
sabedoria – O poema “Erros de Amor” do qual extrai uma estrofe que nos leva à
reflexão.
“Entre
o afeto que sonha e o dever que governa,
Quando
conflito surge e quanto anseios vem!
Quando a dor
de ser só escurece o caminho
Ninguém pode
prever as lagrima de alguém...”
O
nosso belo pássaro, inconformado com seu destino, debatia-se, machucando as
asas nas grades da gaiola na inútil tentativa de quebra-la. Queria voar, ver o
sol frente a frente, contornar as estrelas, sentir mais próximo o suave perfume
das flores e o êxtase do amor; desfrutar do direito de não ser caçado,
perseguido, aprisionado, discriminado, enfim, viver intensamente a sua
sensibilidade.
A
ave mais ferida por expectativas e sonhos, não realizados, torna-se prisioneiro de si mesmo e
contrapondo-se à expressiva contribuição ofertada para a valorização das coisas
enriquecedoras, continuou machucando-se, machucando-se sem ter realizado a
plenitude de vida almejada.
Um
dia encontraram-no muito ferido e morto.
Os
que passavam diziam:
-
Olhem o pássaro de impar beleza, que tanto enriquecia nossas vidas, que alegria
e felicidade ele nos proporcionava. Que grande perda, sentiremos muitas
saudades.
Alguém
retrucou – Deus que é justiça e
misericórdia, não deveria permitir essa
morte tão triste! Disse outro:
-
Pois foram exatamente esse tributos Divinos que proporcionara-lhe condições
para a devida reabilitação e reduzindo sua liberdade que tantos perigos
oportunizam. Deus protegeu-o meu caro, dos outros e dele mesmo. Porventura não
somos todos igualmente prisioneiros dos corpos que merecemos?
Que
você querido amigo Wallace, capte através da acústica do seu sensível espirito,
hoje livre, a verdadeira intensão dessa pequena e sincera oferenda, de sua
amiga Rosinha.
Rosinha de Toledo

Não conheci o Sr Wallace mas a descrição que dele nos faz a querida Dona Rosinha, me faz lamentar não ter tido a sorte de conhecer uma pessoa tão especial.
ResponderExcluirVilma agradeço o comentário, realmente o Wallace foi uma pessoa especial que muito contribuiu para o movimento espirita. abraços
ResponderExcluir