PESQUISAS
CIENTÍFICAS SOBRE A REENCARNAÇÃO
O jornalista
Tom Shroder, autor do livro Almas Antigas, acompanhou as pesquisas do dr. Ian
Stevenson sobre reencarnação. Ele falou conosco a respeito de seu trabalho,
sobre a resistência da ciência em investigar o assunto e como sua vida se
transformou após esse contato com o tema.
- Gilberto
Schoereder -
No Brasil,
as pesquisas científicas sobre reencarnação têm sido realizadas principalmente
pelo dr. Hernani Guimarães Andrade e pelo dr. João Alberto Fiorini, cujas
investigações vêm sendo publicadas pela Espiritismo & Ciência. Nos EUA, a
linha de frente dessas pesquisas está a cargo do dr. Ian Stevenson, médico
psiquiatra que há décadas vem coletando relatos de possíveis casos de
reencarnação em todo o mundo.
Quem quiser
conhecer melhor o trabalho do cientista norte-americano, vai encontrar
informações muito interessantes no livro Almas Antigas (Ed. Sextante). É mais
uma boa oportunidade para se discutir a participação da ciência e as
investigações com metodologia científica sobre a reencarnação.
O livro foi
escrito pelo jornalista Tom Shroder - editor do conceituado jornal
norte-americano The Washington Post - e apresenta as pesquisas de Stevenson, a
quem o jornalista acompanhou em diversas viagens pelo mundo. Entre outras
coisas, o que o livro mostra é que o pensamento científico só tem a ganhar se
conseguir se abrir para novas possibilidades. Além disso, existem cientistas de
peso realmente preocupados com questões que, até pouco tempo atrás, eram
consideradas como pertencentes apenas ao campo do espiritualismo. O próprio dr.
Stevenson, ainda que pouco fale publicamente sobre o tema, deixou bem claro que
não se importa com o que os colegas cientistas possam pensar a respeito de seu
trabalho, uma vez que está plenamente consciente de que vem agindo com o maior
rigor científico possível.
Também é
preciso que se diga que, nos últimos tempos, vários cientistas têm demonstrado
um interesse verdadeiro em aproximar a ciência de conceitos espiritualistas
milenares - mesmo que isso tenha ocorrido mais no aspecto teórico e conceitual.
O resultado dessa aproximação tem sido, em muitos casos, a descoberta de noções
que já existem há centenas ou milhares de anos, e que só recentemente a ciência
tem conseguido conceber e desenvolver.
O caso do
dr. Stevenson talvez seja apenas mais claro, mais nítido, uma vez que ele foi a
campo recolher testemunhos, e suas pesquisas parecem ter ido mais longe do que
a maioria dos cientistas. Recusando-se a se apoiar apenas em teorias, ele
passou trinta e sete anos viajando pelo planeta, coletando testemunhos de
crianças que alegam ter lembranças nítidas de outras vidas. Não é um
procedimento inédito, mas a diferença é que nenhum dos casos estudados estava
sob influência de hipnose, da mesma forma como as informações fornecidas podiam
ser facilmente verificadas, uma vez que se referiam a existências passadas,
porém recentes, e não distantes no tempo, como a Idade Média ou o antigo Egito.
Sem
Dogmatismo
Segundo
Shroder, um dos aspectos marcantes em Stevenson e que chamou sua atenção é sua
postura absolutamente pé-no-chão, verificando minuciosamente as informações
obtidas nas entrevistas. E também, quando passou a pesquisar a obra do
cientista, o jornalista percebeu que outros cientistas em várias partes do
mundo o tinham em alta consideração, apesar de seu nome ser muito pouco
conhecido fora do meio acadêmico.
Stevenson
jamais deixou de considerar as possibilidades contrárias, aquelas que poderiam
deitar por terra qualquer realidade do fenômeno da reencarnação: como, por
exemplo, se os pais das crianças interrogadas pudessem, mesmo
inconscientemente, estar passando informações a elas. Quando Shroder perguntou
a Stevenson sobre essa possibilidade, ele simplesmente respondeu: "Essa
idéia nunca deixa de assombrar meus pensamentos". Em outras palavras, não
se trata, em hipótese alguma, de uma pesquisa viciada, com uma só direção, mas
que está sempre levando em consideração todas as variáveis possíveis.
O
pesquisador também vê, com uma clareza raramente encontrada, os problemas pelos
quais a ciência passa atualmente. Já em 1989, em palestra proferida na
Southeastern Louisiana University, ele dizia: "Para mim, tudo em que os
cientistas acreditam agora está aberto a mudanças, e eu fico consternado ao
perceber que muitos aceitam o conhecimento atual como algo imutável". E
mais: "Se os hereges pudessem ser queimados vivos nos dias de hoje, os
cientistas - sucessores dos teólogos, que queimavam qualquer um que negasse a
existências das almas no século XVI - hoje queimariam aqueles que afirmam que
elas existem". Uma postura confirmando a suspeita de muitos de que a
ciência, em vários aspectos, tornou-se tão dogmática quanto as religiões dos
séculos passados, tornando-se uma espécie de religião moderna.
Formado em
medicina no Canadá pela Universidade McGill em 1943, Stevenson se especializou
em psiquiatria e, em 1957, tornou-se chefe do departamento de psiquiatria da
Escola de Medicina da Universidade de Virgínia, onde começou a estudar crianças
que se lembravam de existências passadas e se dedicou totalmente à pesquisa de
fenômenos paranormais. Quando Tom Shroder começou a investigar as publicações
científicas à procura de referências sobre o trabalho do dr. Ian Stevenson
encontrou, ao lado de cientistas que não aceitavam as provas de Stevenson sobre
reencarnação, uma série de pesquisadores que o consideravam um precursor, um
homem que iniciou investigações científicas em temas que, até então, eram
considerados tabus.
Um deles
chegou a compará-lo a Galileu, o que talvez não seja tão exagerado, uma vez que
hoje em dia também é preciso coragem para enfrentar o dogmatismo da comunidade
científica.
Outra
Postura
Talvez
alguma coisa esteja realmente mudando na ciência. A quantidade de estudiosos
investigando casos ligados à paranormalidade vem aumentando, e a postura de
importantes teóricos tem reforçado esses posicionamentos. É verdade que esse
não é um movimento tão recente, tendo começado com o pensamento de Fritjof
Capra e, mais recentemente, ganhando o apoio de cientistas importantes como
Ilya-Prigogine, que estabelece paralelos consistentes entre a antiga filosofia
hindu e as modernas teorias da física quântica - capazes de serem aplicadas com
sucesso na explicação de assuntos cabeludos, como a reencarnação, fenômenos
parasicológicos, a existência de universos paralelos e dimensões alternativas
de realidade.
Mas não há
dúvida de que, para a ciência, em seus aspectos mais ortodoxos, o que conta é a
experimentação, a existência de provas conclusivas, a possibilidade de repetir
experiências em ambientes, situações e momentos diversos. Stevenson, como
qualquer cientista moderno que conhece o terreno em que está pisando, sabe que
existem temas de pesquisa que simplesmente não se encaixam nessas exigências.
Ele viajou para a Índia, para o Oriente Médio e muitos outros locais coletando
informações, entrevistando as crianças e anotando os dados por elas fornecidos,
para só depois partir numa verdadeira investigação policial e reconstituir a
vida passada à qual elas se referiam. Isso não pode ser repetido num
laboratório.
Assim como
se referiu à afirmação de que a alma existe como algo capaz de levar uma pessoa
à fogueira - senão literal, pelo menos metaforicamente -, ele também citou uma
experiência controlada para verificar a possibilidade da existência dessa parte
imaterial do ser humano. Um homem à beira da morte foi colocado numa cama em
cima de uma balança. No momento em que morreu, verificou-se que o peso
registrado na balança não foi alterado. Assim, se a alma existe e sai do corpo
no momento da morte física, certamente ela não tem peso. É uma tentativa até
mesmo ingênua, uma vez que estamos falando de valores completamente diferentes,
que vão requerer dos cientistas posturas e modos de pensamento muito distantes
daqueles aos quais estão eles acostumados.
Na
entrevista a seguir, Tom Shroder fala mais sobre seu trabalho com o dr. lan
Stevenson.
O fato de
você deixar de ser um cético e passar a acreditar na veracidade da reencarnação
alterou a forma como você encara a vida?
Primeiramente,
quero dizer que meu entendimento básico sobre o assunto não mudou. Eu me aprofundei
no trabalho de lan Stevenson com um desejo de examinar seus métodos - para ver
as evidências em primeira mão e avaliar sua metodologia e conclusões. Nunca me
impressionei com crenças em fenômenos paranormais baseado apenas no desejo de
acreditar em algo fantástico ou na sensação de que "tem de existir algo
mais".
Isso posto,
antes de minhas experiências com o dr. Stevenson, eu não tinha encontrado
nenhuma "evidência" sobre a possibilidade da reencarnação que
resistisse a tanto escrutínio. Eu estava, sim, muito aberto à possibilidade de
que, vistos de perto, os casos de Stevenson poderiam não ser convincentes. Ao
estudar esses casos, percebi que uma série de perguntas clamava por respostas:
1 - As
crianças realmente haviam feito declarações espontâneas sobre terem tido uma
identidade prévia, com informações específicas sobre essa identidade?;
2 - As
coisas ditas pelas crianças realmente descreviam a vida de uma determinada
pessoa falecida que pudesse ser identificada?;
3 - Existia
alguma possibilidade da criança ter obtido aquela informação de uma maneira
normal?;
4 - Poderia
haver algum motivo, consciente ou não, para que a testemunha estivesse mentindo
ou fabricando seus relatos?;
5 - O dr.
Stevenson estava conduzindo suas pesquisas de maneira objetiva e razoável?;
6 - As
evidências eram fortes o bastante para suscitar alguma outra possibilidade
alternativa?
Eu não previ
como seria afetado emocionalmente se, depois de considerar os trabalhos de
Stevenson cuidadosamente, eu fosse obrigado a concluir que não havia uma
explicação normal para tudo que as crianças estavam dizendo e fazendo. Por
"explicação normal" eu quero dizer qualquer uma que exclua forças ou
processos atualmente desconhecidos da ciência. Quando cheguei a essa conclusão,
achei muito difícil aceitar. E ainda acho. O maior impacto das constatações em
minha vida foi poder vislumbrar em que grau os seres humanos se enganam
acreditando entender seu lugar no universo. Os rápidos avanços da ciência e
tecnologia criam a impressão de que estamos nos aproximando de todos os
mistérios do mundo. Minha experiência com Stevenson me fez confrontar o fato de
que os mistérios do mundo são muito maiores do que aquilo que conhecemos. Se
ninguém entende as bases da consciência, de onde ela vem ou mesmo qual é sua
natureza (e NINGUÉM entende isso), por que devemos nos surpreender quando
certas anomalias surgem em volta dela?
Como foi
feito o acompanhamento dos trabalhos do dr. Stevenson?
Stevenson
estudou esses casos como um detetive policial. Ele seguiu relatos iniciais até
à fonte, entrevistou testemunhas em primeira mão, examinou e, em alguns casos,
cruzou informações identificando testemunhas que pudessem corroborar ou
discordar de um testemunho-chave. Ele confrontou testemunhos verbais com
registros escritos sempre que possível, considerou razões prováveis para uma
mentira, ou auto-ilusão, buscou caminhos normais através dos quais a criança
poderia ter obtido conhecimento sobre a identidade de uma possível vida
passada, buscou conexões ocultas entre a criança e sua família com a família da
pessoa falecida. Não apenas isso: um colega de Stevenson aplicou testes
psicológicos nas crianças que fizeram relatos sobre vidas passadas e, depois,
comparou-os ao teste de crianças comuns. Notavelmente, não surgiu qualquer grau
de patologia psicológica naquelas que falavam sobre existências anteriores.
Elas se mostraram saudáveis, um pouco mais inteligentes e menos sugestionáveis
do que a média. Seus professores as consideraram bem ajustadas, mas os pais não
muito. É possível entender que os pais de uma criança que afirme não pertencer
àquela determinada família tenham dificuldades para lidar com ela.
Você disse
que chegou até as pesquisas do dr. lan Stevenson por meio de uma matéria sobre
o dr. Brian Weiss. Em que, exatamente, diferem as pesquisas e resultados
obtidos por um e por outro?
Os livros de
Weiss falam sobre lembranças de supostas vidas passadas de adultos sob efeito
da hipnose. Tais casos não possuem os fatos que tornaram os casos de Stevenson
- lembranças espontâneas de crianças pequenas - mais convincentes. Por um lado,
os casos de hipnose freqüentemente lidam com vidas em um passado distante,
tornando quase impossível confrontá-los com a vida de qualquer pessoa
historicamente verificável. Os detalhes na "memória" dos pacientes
sob hipnose tendem a ser genéricos, do tipo que qualquer adulto poderia obter
em livros de História ou filmes, e repetir como parte do exercício hipnótico.
Afinal, pacientes sob hipnose são instruídos a relaxar e deixar sua imaginação
assumir o controle. Nenhum dos casos de Weiss mostrou qualquer paciente
transmitindo informações que não pudessem ter sido obtidas em livros ou filmes.
Assim sendo, por que acreditar que tais pessoas estejam falando sobre vidas
passadas verdadeiras e não apenas usando a imaginação para se colocar num
cenário imaginado? As crianças de Stevenson, por outro lado, fornecem relatos
específicos sobre um passado recente. Quando você tem casos em que crianças bem
jovens fazem muitas afirmações específicas sobre nomes, lugares, datas e
eventos que batem com a vida de uma pessoa recém-falecida e comprovadamente
estranha à família daquela criança, isso não pode ser facilmente explicado.
A que você
atribui a resistência da ciência para se aprofundar em qualquer pesquisa
referente à reencarnação ou à sobrevivência do espírito após a morte?
Três
problemas:
1 - Esse
tipo de pesquisa não permite investigação laboratorial. O tipo de fenômeno -
declarações espontâneas - não pode ser repetido de maneira programada, ou visto
através de um microscópio. Tais casos só podem ser investigados como se faria
com um crime, ou processo legal - com entrevistas, cruzando informações de
várias testemunhas com evidências documentadas. Embora isso possa ser feito com
bastante cuidado, alguém sempre pode descartar o caso como "evidência
fantasiosa" e, portanto, não-confiável;
2 - Há uma
total falta de evidência sobre qualquer mecanismo através do qual a
reencarnação se tornaria possível. Stevenson de modo nenhum afirma poder
detectar, com instrumentos objetivos, qualquer tipo de "alma" que
estaria trazendo lembranças e atributos pessoais de um certo corpo físico, e
tampouco aponta qualquer evidência de forças através das quais uma alma, se
existir, possa se transferir de um corpo para outro;
3 - Há
sempre um conservadorismo na ciência, uma tendência para não encarar com
seriedade qualquer evidência que desafie o atual entendimento de como o mundo
funciona. Infelizmente, com freqüência, isso se traduz como falta de vontade
para até mesmo considerar tal evidência.
Muitos
criticaram os casos de Stevenson sem nem ao menos se darem ao trabalho de
examiná-los. Se isso acontecesse, essas pessoas descobririam que crianças de todas
as partes do mundo estão fazendo relatos extraordinários. Deveria ser natural
alguém desejar saber o que está fazendo com que elas digam tais coisas. Ninguém
está afirmando que Stevenson descobriu a melhor maneira possível para examinar
tais casos. Talvez exista um modo melhor. Eu sei que nada gratificaria mais o
doutor do que alguém lhe dizer qual é.
Na Índia
Trinta e
sete anos após iniciar suas pesquisas na índia, o dr. Stevenson voltou ao país
em companhia de Tom Shroder para investigar o caso de uma menina de sete anos
chamada Preeti. Quando foram à sua casa, o pai, Tek Ram, disse que assim que
aprendera a falar, Preeti tinha afirmado para os irmãos: "Essa casa é sua,
não é minha. Esses são os seus pais, não os meus". Depois dissera à irmã:
"Você só tem um irmão, eu tenho quatro". Disse ainda que se chamava
Sheila, e deu os nomes de seus "verdadeiros" pais, implorando para
ser levada para casa, na cidade de Loa-Majra, onde Tek Ram e a esposa nunca
tinham estado. Eles disseram para ela parar de falar bobagens e ignoraram o
caso.
Mas, aos
quatro anos, Preeti pediu ao vizinho, um leiteiro, que a levasse para a vila. O
leiteiro repetiu a história da menina para uma mulher que havia nascido em
Loa-Majra e perguntou se ela conhecia alguém com os nomes que a menina disse
que seus pais tinham, e se eles tinham perdido uma garota chamada Sheila. A
mulher respondeu que conhecia, e que a filha deles, Sheila, tinha sido morta,
atropelada por um automóvel.
A história
chegou até a vila e o pai da menina morta foi visitar Preeti. Segundo Tek Ram,
ela reconheceu o homem e, mais tarde, quando foi até Loa-Majra, reconheceu
outras pessoas.
Quando lhe
perguntaram como tinha morrido, Preeti disse: "Caí do alto e morri".
Quando lhe perguntaram como tinha ido parar naquele lugar, ela respondeu:
"Estava sentada à beira do rio. Estava chorando. Não conseguia achar uma
mamãe, então, vim para você". O que não batia com a fala de Preeti era o
fato dela dizer que havia caído do alto e morrido, quando se sabia que Sheila
tinha sido atropelada. Dias depois, Stevenson e Shroder puderam passar por
Loa-Majra e o jornalista ficou sabendo que um relatório sobre a morte de Sheila
dizia que ela tinha sido jogada a mais de três metros de altura. Outro detalhe
que chamou a atenção é que, no acidente, Sheila tinha se machucado na coxa, e
Preeti apresentava uma marca de nascença no mesmo local.
Como
cientista responsável que é, o dr. Stevenson reconhece a possibilidade do caso
ser explicado por outras teorias que não a reencarnação, mas salienta que,
muitas vezes, as únicas evidências possíveis de serem coletadas são aquelas
baseadas na memória das pessoas.
Esta matéria
foi retirada do site do IPPB.



